Em uma iniciativa que buscou manter a rotina e fortalecer os laços durante o recesso acadêmico, estudantes autistas da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) realizaram, na tarde deste sábado (6), uma visita enriquecedora ao Centro de Estudos Astronômicos de Alagoas (CEAAL). A atividade foi organizada pelo Coletivo Autista da UFAL (CAU), um grupo autogerido que promove integração, reconhecimento e apoio mútuo entre os participantes.
Conquistas e Legado: A Luta por um Espaço Acolhedor
O CAU, que realiza encontros semanais durante o período letivo, tem como objetivo principal fortalecer habilidades sociais, facilitar a comunicação e lutar por uma universidade mais acessível a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A trajetória do coletivo é marcada por importantes conquistas estruturais dentro da UFAL. Uma delas foi a criação de uma sala de apoio exclusiva para estudantes autistas, um resultado direto das reivindicações do grupo.
Este avanço institucional tem um nome: Thiago Alves de Cerqueira D’Almeida. Thiago teve um papel central ao denunciar as barreiras arquitetônicas e sensoriais da biblioteca universitária e ao evidenciar a necessidade crítica de um espaço adequado para estudo, descanso e autorregulação. Após seu falecimento, o legado de Thiago foi imortalizado na sala que hoje leva seu nome, tornando-se uma referência essencial no acolhimento de estudantes autistas dentro da instituição.



O CAU: Um Lugar Seguro para Ser “Eu Mesmo, Sem Máscaras”
Além dos avanços institucionais, o CAU tem impactado profundamente a experiência individual dos participantes. A visita ao CEAAL se insere em uma programação especial de recesso, pensada para manter a rotina e os vínculos construídos no coletivo.
A ida ao centro astronômico coincidiu com a Palestra da Lua Cheia, evento mensal do CEAAL, que nesta edição abordou “Ondas Gravitacionais: uma nova janela para o Universo.”
O estudante de Biblioteconomia, William, 31 anos, que comentou sobre a vastidão do cosmos, relatou como o coletivo transformou sua vivência universitária:
“Os encontros do CAU não só me ajudaram a lidar com a ansiedade que sinto o tempo todo, como também me permitiram conhecer outros autistas, compartilhar minhas vivências e ouvir as delas. No grupo eu posso ser eu mesmo, sem máscaras, livre de julgamentos e de olhares traiçoeiros. Sei que serei acolhido e tratado com respeito — e, o mais importante, com sinceridade. Pela primeira vez sinto que faço parte de um grupo onde todos me entendem.”

William destacou ainda o senso de pertencimento e leveza encontrado no coletivo, apesar das dificuldades:
“Mesmo com dificuldades de comunicação, estamos sempre rindo e amenizando nossos problemas, que muitos não enxergam e acham que são ‘drama’. Mesmo conhecendo o pessoal há pouco tempo, parece que os conheço há anos. No CAU me sinto em casa. Não tenho palavras para descrever o quanto o grupo me ajudou. Quase surtei por inúmeras razões, e ali encontrei um lugar seguro. Apesar do diagnóstico tardio, sinto que minhas vivências podem ajudar outros autistas, tornando nossa jornada mais leve.”
A experiência cósmica também inspirou o estudante:
“Apesar de não ser um dos meus hiperfocos, eu acho lindo os planetas, as galáxias, os astros e cometas… [A astronomia] nos mostra que, apesar de nossas dificuldades e diferenças, nada se compara à vastidão do universo. Espero algum dia que o ser humano possa evoluir tecnologicamente para poder viajar e desbravar as galáxias… pois somos luz na escuridão, assim como as estrelas, mas temos que enxergar nossa própria luz em meio às trevas que nos rodeiam.”
Com histórias como a de William e avanços conquistados coletivamente em nome de um legado, o CAU segue se consolidando como um espaço fundamental de acolhimento, pertencimento e luta por acessibilidade na UFAL.








