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Espíritas são apolíticos?

Como frequentadora de casas espíritas desde a década de 80 e palestrante desde o início de 2000, posso afirmar que não acredito que os espíritas sejam apolíticos. Mas não penso que deveriam ser!

Na cronologia acima descrita a demarcar um espaço de experiência entre espíritas, o Brasil viveu reveses duríssimos no cenário político, mas a linha discursiva das casas, não demonstrava intolerância com os medalhões da direita, e haja caridade para fazer! O fluxo parecia natural.

Quando a esquerda fincou território no poder, houve um período de muita instabilidade; nas reuniões sempre havia alguém que anunciava um período de provas árduas advindo da ignorância do povo que havia eleito um analfabeto, cachaceiro, fora dos padrões “naturais” da branquitude – a interpretação final é minha.

Conheci Lula pessoalmente aos 18 anos, em um assentamento denominado Fazenda Conceição, no litoral norte de Alagoas, quando também me encantei por  Aziz Nacib Ab’Saber, que o acompanhava. A fala daquele homem denotava saberes profundos da política nacional e internacional, e por isso nunca me deixei convencer naquele quesito distintivo para baixo que foi colocado nele. Eu sabia que Lula não era analfabeto!

Eu ouvia o presidente Lula ser motivo de chacota, ter a ausência de um dos dedos transformada em piada, e isto acontecia na casa espírita, sim! Silenciava, não endossava, não sorria, mas não questionava. Passei longo período em estado de concessão dos pontos de vista políticos à esquerda, em nome de um convívio que massificava a ideia de não gostar de política, mas na prática, demonstrava afinidade com políticos. E quase sempre direitistas.

O afastamento veio manso, paulatino, até que um motivo mais forte me levou a romper com aquela casa na qual havia estabelecido trabalhos que em si eram maravilhosos, mas a direção já não ocultava o incômodo com a escolha política que delineava meu perfil de cidadã. Mudei de casa, de bairro e de centro espírita!

A linha humanista das minhas palestras, mais assertiva e trabalhada em razoável cabedal de leitura, agradava, envolvia; porque em geral o público não fazia uma associação entre harmonização interior e vida social, cultural, econômica e histórica, mas eu fazia e faço. Foi assim que uma das mais amorosas confreiras da última casa que frequentei como participante, no período eleitoral me classificou de “víbora comunista”.

Quando em palestra na cidade de Maceió Divaldo Franco elogiou Doutor Moro e a República de Curitiba, foi sobejamente aplaudido. Para mim, encerrava um ciclo de idas a qualquer palestra dele. Mas meus conterrâneos presentes entraram em estado de êxtase.

Meu último texto, entre elogios e incentivos, também recebeu o costumeiro enxovalhamento de irmãos espíritas, o discurso de que espiritas devem ser apolíticos foi corrente. O que me levantou a dúvida que intitula este escrito: espíritas são apolíticos?

Como podem ser apolíticos se declararam veementemente apoio a Bolsonaro, inclusive criando lendas e esticando a imagem de Chico Xavier, quase transformado em um oráculo, para beneficiar o candidato escolhido?

Aceitando todas as infrações constitucionais, que colocam o país em insegurança jurídica, apenas para deter um homem entre as celas dos temores ideológicos, baseados em fake news, não estariam atuando politicamente?

Meus irmãos espíritas, são políticos, sim! E com a alegria de também afirmar que entre eles muitos aderiram ao viés progressista, que não separa espiritualidade de justiça social, e compreende a integralidade do ser, como expressão divina!

Aqueles que fazem mais barulho quando questionados, demonstram inclinação à direita e portanto, hoje sustentam com sobeja omissão evangélica os ditames de um presidente anti-humanidade e pró-mercado (incluindo o de armas). Mas nós sabemos que também chegará o dia da iluminação consciencial para eles, e oramos para que reconheçam a triste história de envolvimento religioso com a manutenção da política destrutiva que está sendo implantada no país.

Falo religioso, porque tais espíritas transformaram as casas em variações de igrejas, e agem como os antepassados católicos ou evangélicos, em posturas dogmáticas, e jamais apolíticas!

Sim, este texto traz gratidão à força de emersão de uma mentalidade renovada, que surge no centro do Espiritismo brasileiro, com ares de progresso. O espíritas progressistas estão falando de amor, em expressões de fraterna justiça. Porque os desamparados das leis humanas, não são esquecidos, mas filhos amados do Senhor!

Somos espíritas, políticos e pacíficos.

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