Ícone do site Repórter Nordeste

Espírita progressista, transfobia e misoginia

Leitores aos quais devoto extremo respeito, é a vocês que peço a licença para uma abordagem que passei a julgar necessária, na alçada da reflexão sobre os caminhos da palavra, intencionalidade, pressa de julgamento e potencial injustiça que uma condução discursiva pode nos levar a manter viva.

Prometo não voltar a escrever sobre o mesmo evento com a riqueza de detalhes e análises que neste pretendo, para não cair no abismo da mágoa e jamais macular levianamente esta interação que considero rica de valores.

Tudo aconteceu de repente demais para que qualquer atitude pudesse ter sido ensaiada por mim. Neste lance repentino, tomei conhecimento sobre uma polêmica que envolvia a escritora JK Rowling, autora de livros que muitos apreciam, entre eles Harry Potter.

Que fique bem claro desde agora que minha relação com JK é de leitora, tendo como livro predileto seu desconhecido “Morte Súbita”, que aos invés de elementos fantásticos aborda questões sociais, e por isto mesmo me prende a análise.

A história envolvia a leitura de um artigo pela citada escritora, que trazia a seguinte frase: “corpos que menstruam”, levando-a a sugerir possíveis nomes para estes corpos, entre eles, mulher.

Reafirmando a superficialidade da minha relação com JK, mas meu sincero respeito pela luta feminista, que analisa o sexo feminino como motivo da sanha patriarcal reconhecendo com isto a necessidade de não relativizar os órgãos reprodutivos e suas funções, assenti em uma postagem na minha rede social que mulher menstrua, sim!

A partir disso, fui abordada por antigo companheiro das alas ditas progressistas do espiritismo que trazia uma acusação de transfobia na ponta da língua, ao que redargui em negativa. Mas a atitude seguinte veio manchada de truculência porque ele queria que eu retirasse a postagem do ar.

Para quem convive com imprensa ou presta mais atenção nos movimentos comunicacionais, esta imposição é altamente desrespeitosa com a parte intimada, haja vista bradarmos por liberdade de expressão associando-a a democracia, justamente para garantir que todos possam se manifestar politicamente. Era exatamente isso, um posicionamento político a favor de uma luta que me interessa como mulher.

Mesmo sendo gentil com a pessoa que se demonstrava raivosa, fui bastante atacada, inclusive por outras pessoas que entraram em suporte. E o fato de manter minha postura parece ter sido o que mais irritou, pois a prática de intimidação tem se tornado corriqueira em grupos que acreditam vencer debates utilizando recursos de “cancelamento” do outro, como se diz pelas redes atualmente.

Cancelar é desqualificar, perseguir, enxotar a pessoa de aparições públicas e convívios sociais online, agregando à imagem um selo de negatividade que afasta os indivíduos, podendo comprometer negócios e outros tipos de situações que podem ser definidoras da vida ou sobrevivência de quem se torna vítima desta prática.

Exatamente isto foi engatilhado contra mim por esta pessoa que se diz espírita progressista e de esquerda, taxando minha imagem com o selo da transfobia.

O que é transfobia na prática não interessa mais a estes grupos, pois apenas colam o tal selo levados pela própria interpretação, algo muito semelhante ao que fazem os ditos “bolsominions”, propagadores de fakes news. Ou seja, também se propaga notícia falsa entre espíritas progressistas e de esquerda.

Minha jornada de pessoa com pensamento libertário deveria ter terminado neste episódio, se não fosse salva pela consciência que possuo sobre minhas reais adesões políticas e humanitárias, mas em decorrência disso pude ver e sentir a reação dos nichos onlines quando alguém se torna maldito.

Claro que recebi solidariedade de muitas pessoas, de maneira privada ou pública estas demonstrações de maturidade e também isenção julgadora chegaram até minha vida com grata acolhida!

Porém, se não contasse hoje com o equilíbrio de saber quem sou, até mesmo eu poderia estar confundida, oscilando entre a acusação instantânea de transfobia.

Eis o valor da ciência para a vida real, eis a contribuição da Análise do Discurso para esta história e suas intencionalidades.

Eis a vitória da razão sobre a emoção manipulável, a força do argumento baseado na honestidade intelectual e história de vida limpa, simples, transparente.

Agora me sinto pronta para alertar os adultos que me cercam sobre o quanto podem ser manipuláveis pelo afã do politicamente correto a qualquer custo, apressadamente, sem ter o tempo da análise, do estudo, tal qual orientou Kardec sobre a lide com espíritos.

Muitas vezes esquecemos que encarnados ou desencarnados podemos desencadear lances de assédio. Seguir os vernizes da bondade não parece seguro para quem se propõe liderar qualquer tipo de empreitada na alçada dos agrupamentos humanos.

É necessário perceber o viés de poder, a ânsia de domínio da minha expressão de mulher.

Precisam parar de repetir fórmulas vendidas em garrafas coloridas e utilizar a razão, a crítica, a observação e esgotar recursos antes de engolir conteúdos mirabolantes.

Eu, acusada de transfobia sem jamais ter sido transfóbica, declaro que este trabalho de cancelamento é extremamente misógino.

Mas aconselho o leitor que tiver interesse em saber do que se trata, fazer suas próprias análises e pensar por si, seja sobre mim, seja sobre quem inspirou este texto.

Fim.

Sair da versão mobile