Mais do que discutir previsões sobre a intensidade do próximo El Niño, o Brasil precisa medir seus impactos econômicos e fortalecer políticas de adaptação.
Essa foi uma das principais mensagens da mesa redonda promovida pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), que reuniu os engenheiros agrícolas e especialistas da FGV Agro, Eduardo Assad e Guilherme Bastos, para discutir os efeitos do fenômeno sobre a agricultura brasileira.
Durante o encontro, os participantes defenderam que o país deixe de concentrar o debate apenas em projeções climáticas e avance na gestão dos riscos para reduzir prejuízos ao agronegócio e à economia.
Ao comentar a necessidade de mudar o foco do debate, Assad defendeu que o país passe a priorizar o planejamento econômico e a gestão dos riscos climáticos. “Está na hora do Brasil parar de fazer alarmismo e começar a fazer conta. Precisamos entender o impacto das mudanças climáticas na agricultura, na economia e na sociedade como um todo para tomar decisões baseadas em planejamento, e não apenas reagir quando as perdas acontecem”, comentou, durante o evento, realizado nesta segunda-feira (07/07).
Os especialistas ressaltaram que a classificação definitiva do fenômeno deverá ocorrer no fim de julho, mas os modelos climáticos indicam elevada probabilidade de um El Niño muito forte ao longo do segundo semestre. Ainda assim, reforçaram que os impactos dependerão da distribuição das chuvas durante o ciclo agrícola e que o cenário exige monitoramento constante, sem exageros.
Ao fazer uma panorama sobre as culturas mais vulneráveis, Assad explicou que boa parte do Centro-Oeste e do Norte do país deverá enfrentar um período de deficiência hídrica e temperaturas elevadas, cenário que tende a afetar principalmente soja e milho.
Já no Sudeste, café e laranja aparecem entre as culturas mais sensíveis às ondas de calor e à redução das chuvas. Na região Sul, por outro lado, a preocupação recai sobre o excesso de precipitações.
Segundo Bastos e Assad, episódios anteriores de El Niño provocaram perdas de até 10% na produção agrícola nacional, embora os efeitos variem de acordo com a região e o comportamento das chuvas. Eles lembraram que o Brasil possui dimensões continentais, o que faz com que determinadas áreas possam registrar perdas enquanto outras mantêm ou até ampliam sua produtividade.
Seguro rural ainda cobre pequena parcela das perdas
A necessidade de ampliar a cobertura do seguro rural no Brasil foi reforçada durante o debate. Guilherme Bastos destacou que o instrumento é hoje a principal ferramenta para garantir sustentabilidade financeira aos produtores diante de eventos climáticos extremos, mas ainda alcança uma parcela reduzida da produção nacional.
Como exemplo, ele lembrou que, nas enchentes registradas no Rio Grande do Sul em 2024, apenas entre 8% e 9% das perdas estavam protegidas por seguros, o que acabou ampliando a pressão sobre recursos públicos destinados à reconstrução.
“O seguro rural não impede a quebra de produção, mas permite que o produtor continue sua atividade econômica. Precisamos ampliar essa cobertura e criar mecanismos para que estados também possam complementar os esforços do governo federal”, destacou Bastos.
Durante a discussão, o especialista também apresentou o conceito de seguro paramétrico, modalidade baseada em indicadores climáticos – como volume de chuvas e temperatura – que permite agilizar indenizações e ampliar a proteção principalmente para pequenos produtores e regiões mais vulneráveis.
Municípios precisam investir em adaptação
Outro ponto destacado pelos engenheiros agrícolas foi a necessidade de fortalecer a preparação dos municípios diante dos eventos extremos. Eles informaram que mais de 90% dos municípios brasileiros ainda não possuem mapeamento adequado de riscos, enquanto 87% não contam com planos municipais de redução de riscos e 78% não possuem planos de contingência para períodos de seca.
Segundo Guilherme Bastos, embora o governo federal tenha papel importante no monitoramento e financiamento das políticas públicas, estados e municípios precisam assumir protagonismo na implementação das ações locais de adaptação.
Já Eduardo Assad defendeu que o país invista mais na disseminação de tecnologias já disponíveis para aumentar a resiliência da produção agrícola, como práticas previstas no Plano ABC e ferramentas capazes de avaliar a saúde do solo, reduzindo perdas provocadas por eventos climáticos extremos.
Ambos reforçaram que o Brasil já dispõe de conhecimento científico e instrumentos capazes de reduzir a vulnerabilidade da agricultura, mas que essas soluções ainda precisam ganhar escala. Encerrando o debate, os especialistas defenderam que adaptação, gestão de riscos e planejamento de longo prazo deixem de ser temas restritos ao meio científico e passem a integrar as políticas públicas voltadas ao desenvolvimento da agropecuária brasileira, reduzindo os impactos econômicos e sociais das mudanças climáticas.







