Tutmés Airan era secretário de Justiça quando, em 6 de março de 2001, no hoje fechado presídio São Leonardo, foram registradas cenas de horror durante um motim: cinco presos mortos em uma rebelião. Um deles foi esquartejado e partes do corpo jogadas para o pátio, onde Airan assistia à cena praticamente sem ação. Outros 3 detentos tiveram os corpos carbonizados.
A violência do sistema prisional de Alagoas foi resolvida por uma longa negociação, sem a polícia disparar um único tiro, com a transferência de 104 presos para o Baldomero Cavalcanti.
Um ano depois, 17 de abril de 2002, uma nova rebelião, desta vez no Baldomero. Um traficante foi assassinado com golpes de espeto e seu corpo foi queimado. 40 presos se rebelaram contra o tratamento da direção do presídio aos detentos. Tutmés Airan, de novo, negociou com os presos uma solução. Sem disparar um único tiro.
18 anos depois, Tutmés assumiu o comando do Tribunal de Justiça de Alagoas. Mantem a mesma ideia desde quando era secretário: flexibilizar o uso de armas para a população mostra que o Estado apenas perdeu o controle sobre a violência.
“Você confessa que a população está entregue à própria sorte”
Para isso, o desembargador recorre a Thomas Hobbes, que discute o papel do Estado nos séculos 16 e 17. O homem é o lobo do próprio homem, dizia Hobbes. Para que pudesse existir a paz entre homens, quase feras cheias de ódio e egoísmo, seria necessário um pacto em que todos abririam mão das liberdades sobre eles mesmos. Sob consentimento entre eles, nasceria, assim, um Estado, que protegeria estes cidadãos deles mesmos.
O que vemos é um enorme equívoco, é a negação do Estado. Porque este Estado não cumpre a sua função básica: a de proteção. E isso é a raiz do Estado moderno. O quê está se dizendo hoje é: cabe ao homem, por sua conta e risco, se proteger
A flexibilização do uso das armas de fogo conduz a um paroxismo:
Ao invés de segurança, isso alimenta a violência. Na medida em que os homens vão ter mais acesso às armas, pequeno conflitos que deveriam ser resolvidos de forma mais civilizada deixarão de sê-lo porque o homem armado se sente no direito de usar o exercício de suas próprias razões. É uma lástima


