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Encantou-se a mulher de preto da Praia da Avenida

Encerrou a caminhada nessa terra de dores para a mulher vestida de preto que por décadas seguidas caminhou pelas areias brancas da Praia da Avenida, no centro de Maceió.

Aquela figura potente, esguia e alta, de lenço e vestes enlutadas, ainda acrescentava uma sombrinha de igual a cor, contrastando com o fundo turquesa da mais bela paisagem da cidade.

Para muitos uma louca. De loucos nenhuma explicação se pede, nenhuma justificativa se busca. O sol escaldante não lhe furtava a presença, assim como não corria da chuva.

Cresci ouvindo as vozes limitadas da ignorância falando de sua doença, de sua teimosia, mas sempre ocultando a razão do seu protesto sem fim, buscando o que não poderia encontrar.

Seus olhos claros eram firmes, enxergando uma dor que o mundo banaliza, e apenas o amor resgata com primazia a salvar o sentido humanitário dessa vida.

Aquela minha tia-avó buscava nas areias da praia mais bela de Maceió o filho que alguma mão cruel lhe retirou.

Sei quase nada sobre o crime, porque a única voz que dele falou todos os dias foi aquela que o mundo classificou como loucura.

Mas sei o que a moveu em meio à indiferença da cidade, sei o que a fez rasgar a inclemência da sociedade conivente e o silêncio do perdedor, eu sei que amor é esse, capaz de não nos permitir voltar a ser e ainda assim buscar o rosto do filho assassinado, gritando com cores e símbolos de não-aceitação o que transborda da alma de uma mãe.

Como gostaria de ter beijado seus pés incansáveis!

Apenas lhe faço essa homenagem simples no formato de crônica e sentida poesia para assegurar que estas lutas seguirão com outras mães, entre as quais sempre estarei, pois sei que, infelizmente somos milhares.

Para a mulher vestida de preto da cabeça aos pés, que durante décadas buscou o filho assassinado pelas areias da Praia da Avenida, o grande encontro aconteceu.

Abrace seu amor e siga em paz flama eterna.

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