Eleições da França neste domingo: o teste de Sarkozy

Na História recente do país, só um presidente caiu tão rápido: Valérie Giscarg d'Estaing, assim como Sarkozy, um político de direita que acabou atropelado pela vitória triunfal do socialista François Mitterrand, em 1981

Agência O Globo

Nicolas Sarkozy, presidente da França, senta-se neste domingo no banco dos réus: será julgado pelos franceses numa eleição presidencial impiedosa. O homem que vendeu o sonho de transformar a França chega ao final de cinco anos de mandato tragado pela crise da Europa. Deverá passar pelo crivo desta primeira etapa da votação. Mas não sobreviverá ao segundo turno, no dia 6 de maio, segundo todas as sondagens. No seu lugar, deverá assumir o rival que até pouco tempo atrás ninguém imaginava no poder: o socialista François Hollande, que nunca exerceu cargo no governo. Se confirmada a previsão, Sarkozy vai engrossar a lista de 14 líderes europeus já derrubados pela crise dos últimos três anos. E entrará para a História como um dos presidentes mais impopulares da Quinta República desde a entrada em vigor da atual Constituição da França, em 1958) derrotado após um único mandato. Na História recente do país, só um presidente caiu tão rápido: Valérie Giscarg d’Estaing, assim como Sarkozy, um político de direita que acabou atropelado pela vitória triunfal do socialista François Mitterrand, em 1981.

– Sem dúvida, é o julgamento de Sarkozy – avalia Bruno Cautrès, do Instituto de Ciências Políticas, o Sciences-Po, em Paris. – Acho que é uma missão quase impossível ele ganhar estas eleições.

Em eleição, quem está no poder é sempre julgado. Mas se Hollande superar Sarkozy com um percentual de 55% dos votos no segundo turno, como indicam as pesquisas – isso vai marcar ainda mais o caráter de um julgamento. É o que explica Etienne Schweisguth, outro analista do Sciences-Po:

– Até hoje, nunca vimos um presidente ser derrotado com 55% de votos contrários. Hoje, a probabilidade de que Sarkozy ganhe parece extremamente fraca – diz.

Erros de francês e roupa de corrida

Dez candidatos participam hoje do primeiro turno. Além de Sarkozy e Hollande: Marine Le Pen, da Frente Nacional (extrema-direita); Jean-Luc Mélenchon (Frente de Esquerda, a extrema-esquerda light); François Bayrou (MoDem, único partido de centro); e candidatos de legendas menos influentes, como Nathalie Arthaud (Luta Operária), Jacques Cheminade (SP), Nicolas Dupont-Aigan (DLR) e Philippe Poutou (NPA). Tirando o duelo dos grandes, a grande questão é para que lado vão os indecisos, quantos serão, e quem vai chegar em terceiro lugar: a extrema-direita de Marine Le Pen ou a extrema-esquerda de Mélenchon?

A esta altura, uma coisa é certa: Sarkozy, na boca de todos os analistas, está derrotado. Para Bruno Cautrès, ele teria alguma chance se conseguisse chegar em primeiro lugar neste domingo. Segundo o especialista, só um político conseguiu virar o jogo no segundo turno: François Mitterrand, em 1981. Mas as circunstâncias eram diferentes.

– Havia uma dinâmica da esquerda em torno de Mitterrand. Sarkozy não conseguirá que uma maioria esmagadora dos eleitores de Marine Le Pen ou de François Bayrou vote nele no segundo turno – aposta.

A crise tem impacto, mas a forma como Sarkozy interpretou o papel de presidente da França é apontada como um dos fatores preponderantes para a sua esperada queda.

– Ele tem um lado popular. Não é um homem extremamente culto. De vez em quando comete erros de francês, o que não se espera da parte de um presidente da República. Mas tem, como se diz aqui, culot, isto é, capacidade de fazer passar as coisas. Mas é um homem sem confiança nele mesmo, o que o torna agressivo ou arrogante – avalia Schweisguth.

Os franceses se chocaram ao ver a foto de um presidente recém-empossado suado, subindo correndo as escadas do Palácio do Eliseu de short e tênis, na volta de seu jogging. Ficou também marcada a imagem dele celebrando a vitória no iate de um amigo bilionário, Vincent Bolloré, dono de um dos maiores grupos industriais da França, de mesmo nome. Ou ainda passeando com a recém-conquistada namorada – a cantora, supermodelo e atual mulher, Carla Bruni – na Disneylândia em Paris, depois de um tumultuado divórcio que foi acompanhado na França como um verdadeiro “Big Brother”.

Depois destes episódios, Sarkozy passou a ser visto como um “presidente bling-bling”, termo pejorativo para designar os novos ricos. Uma imagem de que ele tentou se desfazer, mas não conseguiu.

– Os franceses não estão nem aí se o presidente está apaixonado. A exibição de sua vida privada foi um erro extremo de comunicação – avalia Cautrès.

E como escreveu o “Le Monde”, o fim de Sarkozy vai ser o fim de “uma ilusão francesa” e a volta consagrada do presidente “normal” (o socialista François Hollande).

– Ou todas as sondagens erram pesadamente, ou estamos assistindo a uma verdadeira revolução, silenciosa e profunda: a sacralização do presidente normal, em outras palavras, o fim de uma ilusão francesa de um presidente todo-poderoso, encarnada ao extremo por Nicolas Sarkozy.

E assim, Hollande, um político sem grande carisma nem grandes realizações, se tornou o homem da vez, em parte por se encontrar no lugar certo, na hora certa. Virou candidato depois que o homem que todos esperavam ser o postulante socialista, o ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) Dominique Strauss-Kahn, caiu em desgraça num enorme escândalo sexual.

– Hollande não é um candidato com qualidades excepcionais. Não é um grande orador, e quando está na presença de jornalistas, não entusiasma e hesita na forma de falar. Ele será eleito, mas não graças à capacidade de fazer campanha, mas sim porque vai se beneficiar da forte rejeição a Sarkozy – avalia Schweisguth.

Expectativa em alta com a ascensão da esquerda

O socialista foi, de fato, nesta campanha, o avesso de Sarkozy. Como disse o cientista político Roland Cayrol, numa entrevista à imprensa local, enquanto o presidente fez campanha reativando constantemente os rachas e atacando, a cada vez, um setor da sociedade francesa (como os sindicatos e os juízes), François Hollande adotou a postura do unificador da sociedade – capaz de exercer o papel de apaziguador.

A esquerda francesa, que perdeu as três ultimas eleições presidenciais – em 1995, 2002 e 2007 – volta às urnas com sede de poder. Há uma disposição considerável da esquerda para ganhar. Mas, como explica Bruno Cautrès, a tarefa que Hollande terá pela frente, se for eleito, não será fácil.

– François Hollande vai se encontrar diante de enormes dificuldades. Se o desemprego não baixar, e as pessoas não tiverem a impressão de que o poder de compra vai melhorar, haverá grande desilusão – prevê.

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