Aos berros, uma mulher pede que o segurança de um supermercado na área nobre de Maceió deixe de espancar um menino de rua.
Ele havia furtado um desodorante. Um jovem saca a carteira para pagar o objeto furtado.
O vídeo cai nas redes sociais. Há reações de apoio ao segurança e execração a quem gravou o vídeo.
É pouca a crença na democracia. O apoio ao linchamento mostra que as instituições alagoanas- polícias, justiça, Ministério Público- não angariam a credibilidade suficiente para oferecer uma resposta a uma sociedade relativamente pequena: três milhões de habitantes.
E líder nacional em foragidos da lei. Mais um título negativo em nossa prateleira.
Alagoas é uma terra violenta. Não apenas na atualidade. Sua história é de sangue: massacres aos negros, enforcamentos, revoltas abafadas energicamente pela ação de governos…
Ainda hoje a cidade de Pilar refaz – em detalhes- a execução de dois negros acusados de matar seus senhores.
Repete-se a sanha do justiçamento do século 19, em um crime cheio de lacunas que somente o distanciamento do tempo e a ausência de testemunhas oculares transformam em certeza.
Porém, carrega-se o título de ser o último enforcamento do Brasil autorizado pelo imperador. O crime ganhou um tom nobiliárquico, parece ser mais um título semelhante aos tantos que Dom Pedro II- sob pagamento- distribuía em Alagoas.
Não se repete- teatralmente- o assassinato dos índios caetés na visão da época- a da guerra justa- resposta piedosa ao gentio que devorou um bispo católico nas areias de Coruripe.
Por que?
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O tratamento dado aos pobres mostra o antagonismo da palavra democracia em Alagoas.
Substitua-se o menino de rua do supermercado pelo filho de um desembargador do Tribunal de Justiça.
Melhor: sendo ele- o menino- o filho do governador.
Ou filho do nobre leitor?
Ou do jornalista que cobre as crônicas policiais da nossa terra?
Qual seria a reação da nossa sociedade?
Qual o tamanho do patíbulo e da lâmina para executar um jovem nas condições acima?
Três políticos, um radialista e um jornalista em Alagoas possuem um problema em comum: seus filhos são viciados em drogas.
Eles assistem, dentro de casa, um drama tão semelhante ao daquele menino agarrado pelo segurança.
Não têm a necessidade do furto para manter o vício, é verdade. A classe social permite evitar o constrangimento familiar.
Porém, existem outros constrangimentos: os transtornos de personalidade, as brigas.
“As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas”, disse o polonês Zygmunt Bauman, em recente entrevista ao jornal El País.
Não acreditam, por isso, recorrem a atual representação do patíbulo e da guilhotina. Mesmo que todas as evidências não sejam conclusivas. Mas o crime precisa de justiçamento.
O crime precisa de castigo para atender aos interesses paroquianos de jornalistas defensores da pena de morte- escondendo-se atrás da democracia; da massa aturdida por um sistema que não cumpre suas promessas; e da própria crise da nossa democracia. Ou das nossas instituições democráticas.
“O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes”, repete-nos um lúcido Bauman.
Alagoas pode ser esse resumo do que existe de mais moderno na nossa crise de identidade e mais atrasado na solução de nossas diferenças.
