Ricardo Maia*
IVANA IZA é mesmo divina e maravilhosa. Sendo ela alagoana da gema, decerto pode-se dizer dela que se trata de uma artista “maceiÓtima”. Pois ela sabe muito bem situar-se no presente e no porvir de sua trajetória artística, traçada com singularidade.
Especialmente quando determina, no e para o nosso convívio “caeté” ── sempre avesso/arisco/indisposto à cultura ilustrada ──, o seu lugar e o do Outro na história cultural local. Uma história na qual interesses vitais se conflitam e se emaranham, opondo-se uns aos outros.
E tudo isso para quê? Para participar, criativamente, desta realidade socialmente construída, abrindo ao mesmo tempo os seus e os nossos olhos para a necessidade que temos de procurá-la e descretinizá-la. Inclusive e sobretudo, compreendendo-a mais e mais para transformá-la socio-historicamente. Não há ambição mais bela e missionarismo cultural mais legítimo incorporado por uma pessoa criativa. Seja esta da ciência ou da arte.
Decorre de tudo isso, na certa, e sem o receio de cair no personalismo, a sua sábia escolha anti-geracionista (há quem diga que o geracionismo é uma fobia narcísica) do nome de Homero Cavalcante, o “Homerinho”, para denominar seu “theatro” (com o velho “th” mesmo!). E nesse sentido ── como também já disse em outra postagem aqui ── Ivana Iza, em seu missionarismo cultural, é áulica/professoral/exemplar.
Ela ensina à histÉrica Maceió-artística como tornar-se histÓrica; isto é: mais conscientemente compromissada com o reconhecimento daquele “grande Outro” (Lacan), ou “Outro generalizado” (Mead), em seu/nosso campo social local enquanto “um espaço geométrico dos contrários” (Bourdieu) com múltiplas posições e oposições dentro dele.
Dizendo de outro modo: daquele Outro “iumano” (“iúma”, em língua tupi, significa: da terra, nascido da terra; ouro nativo) em sua/nossa senda sociocultural evolutiva, que sempre soube, como Homero Cavalcante e ela própria, aliar ambição e modéstia ── ao exercerem seu ofício com constância e perseverança, apesar dos pesares.
E assim a criativa Ivana Iza nos ensina a desnormalizar comportamentos que perdem, ou tendem a perder, singularidade psicossociocultural; isto é: sujeitos sem destinos individuados/diferenciados, na medida em que ainda são típicos de um meio social. Em outras palavras: sujeitos afastados, ou até desviados da criatividade (artística ou científica), que parecem remeter suas trajetórias ao que é estrutural e estatisticamente próprio do referido meio.
Como o grande Teatro Deodoro, o Theatro Homerinho finalmente, no próximo 1º de fevereiro de 2025, será aberto ao público, também, como um templo dionisíaco de tríplice portal para uma outra Maceió subjetiva.
Uma Maceió “não-medusina”, mas orfeônica. Ou senão mesmo para uma outra Alagoas mais ilustrada, mais crítica e mais esperançosa.
Enfim, uma Alagoas liberta de um esquema psicossocial único/vicioso de ações e reações. Então, à nós alagoanos, partidários da Ilustração, só nos resta ir à inauguração do Homerinho para testemunhá-la, prestigiá-la e aplaudi-la; e, assim, fazer valer o elevado empreendedorismo de Ivana Iza. Evoé, Baco!!!
Segundo o teatrólogo Homero Cavalcante, o homenageado inspirador do empreendimento de Ivana Iza, haverá concentração (um cortejo dionisíaco?) na Praça Dois Leões (Jaraguá), no 1º de fevereiro, às 16 horas, e depois todos seguirão para inaugurar o teatro, localizado em frente à Associação Comercial de Maceió.
Haverá apresentações artísticas defronte ao teatro.
E a história cultural do teatro, em Alagoas, continua! Continua firme e forte com mais um espaço de esperança para a classe teatrológica alagoana. E, inclusive, para as de outros lugares.
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(*) Ricardo Maia é alagoano de Maceió. Desde 1999, é mestre em psicologia social, pela PUC-SP, com dissertação defendida sobre Um Grupo Chamado “Vivarte”: um estudo dos espaços de auto-posicionamentos mini-políticos na organização retrospectiva do movimento vivartista (1984-1997); é autor, também, do livro Maceyorkinos: ensaio de crítica cultural à Maceió-artística glocalizada.








