Doença brasileira

Exemplo de entrave político: se tivesse o apoio de uma base decente e confiável, o governo federal conseguiria facilmente, por exemplo, encerrar a guerra dos portos, uma versão degenerada do conflito fiscal entre Estados

Rolf Kuntz – Estadão

Não há doença holandesa  por aqui. A indústria do Brasil está sendo corroída por uma doença  inequivocamente brasileira. Longe de ser uma praga, como em outros  países dotados de recursos naturais, a exportação de produtos básicos  tem sido uma bênção para um país assolado por uma combinação de  paralisia política, fisiologismo, populismo e incompetência  governamental.

Exemplo de entrave político: se tivesse o apoio de  uma base decente e confiável, o governo federal conseguiria facilmente,  por exemplo, encerrar a guerra dos portos, uma versão degenerada do  conflito fiscal entre Estados. Essa guerra é movida por meio de  incentivos à importação, um estúpido protecionismo às avessas.  Resultado: concorrência predatória e exportação de empregos.

Para  renunciar a essa aberração, governadores cobram, com apoio de suas  bancadas, compensação do poder central, como se estivessem negociando um  direito. Essa é uma boa ilustração dos problemas enfrentados pelo  Executivo no lodaçal político de Brasília – ampliado e aprofundado pelo  próprio governo federal com sua estratégia de alianças com os piores.

Mas  o governo tropeça e escorrega mesmo sem a colaboração de seus aliados e  de um Congresso pouco envolvido com as questões de interesse nacional.  Peca, em primeiro lugar, pela demora em reconhecer os problemas  importantes. Erra, em seguida, quando tenta contornar a agenda  necessária para tornar o País mais eficiente. Pressionado pelos fatos,  acaba agindo. Age na direção certa, mas de forma incompleta, como quando  se dispõe a eliminar os encargos sobre a folha de salários. Age também  na direção errada, quando amplia o protecionismo e quando negocia, por  exemplo, cotas para a importação de veículos mexicanos. É grotesco impor  ao México um acordo semelhante àqueles impostos pelo governo argentino  ao Brasil. Isso nunca melhorou a indústria argentina, nem tornará mais  eficiente a indústria brasileira. É apenas malandragem barata, uma forma  de contemporizar e evitar um trabalho mais sério.

Enquanto o  governo, sob pressão, tenta resolver com ações de pequeno varejo  problemas do atacado, os sinais de alerta se acumulam, cada vez mais  assustadores. Do começo do ano até 18 de março, o valor exportado, US$  45,6 bilhões, foi apenas 6,4% maior que o de um ano antes, enquanto o  gasto com a importação, US$ 44,4 bilhões, foi 9,7% superior ao de igual  período de 2011. Embora os consumidores se mostrem mais cautelosos, a  demanda interna continua avançando mais velozmente que a oferta de bens  industriais.

A diferença, como no ano passado, continua sendo  compensada pela importação. Sem isso – é sempre bom lembrar -, a pressão  inflacionária seria muito mais forte. O Banco Central teria maior  dificuldade para proporcionar a redução de juros desejada pela  presidente da República e cobrada com insistência por dirigentes da  indústria e seus aliados do neopeleguismo trabalhista.

Mas  atribuir os males da produção brasileira principalmente à taxa Selic e  ao câmbio é quase uma demonstração de fetichismo. O câmbio é relevante,  sem dúvida, mas há informações mais que suficientes sobre o descompasso  entre a produtividade brasileira e a de países tanto emergentes quanto  desenvolvidos. No ano passado, a economia brasileira cresceu menos que a  alemã, a indonésia, a coreana, a mexicana, a turca e, obviamente, a  chinesa e a indiana. O Brasil também cresceu menos que todos os países  da América do Sul e da América Central, com exceção de El Salvador,  segundo estimativa preliminar da Comissão Econômica para América Latina e  Caribe (Cepal). Vários desses países também foram afetados pela  valorização cambial.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI)  acaba de fornecer novos dados sobre o desempenho comercial do setor em  2011. Segundo o levantamento, as importações supriram 19,8% dos bens  industriais comercializados no mercado interno. Esse coeficiente, um  recorde, foi 2 pontos porcentuais superior ao de 2010. Também o  coeficiente de exportação aumentou 2 pontos e chegou a 19,8%, mas esse  avanço resultou principalmente do bom desempenho do setor extrativo. No  caso da indústria de transformação, o peso das exportações ficou em  apenas 15%, 6,6 pontos abaixo do nível atingido em 2004.

Atribuir o  enfraquecimento da indústria ao bom desempenho do agronegócio e da  mineração, como se isso explicasse o problema cambial e toda a perda de  competitividade das manufaturas, é uma evidente fantasia. Não tem  sentido falar de doença holandesa. A mineração e o agronegócio  acumularam competitividade durante anos e são relevantes na cadeia  produtiva da indústria. A doença econômica é brasileira, mesmo, e seu  foco principal é Brasília.

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