Desencarnado esta semana, o médium Divaldo Franco teve uma vida quase centenária, porém, acima das homenagens a seu trabalho e obra, é preciso também destacar as sementes do mal deixadas pela liderança espírita.
A negligência ao bom dever da política, por exemplo. Divaldo nos ajudou a mostrar que a cúpula do espiritismo brasileiro- da qual ele fazia parte- é bem mais próxima do ideário da Tradição, Família e Propriedade, a TFP, a organização ultracatólica que atuava na ditadura militar e tão absurdamente radical que se colocava como contrária aos avanços sociais e aos progressos da vida material.
Num mundo onde temos visões cada vez mais radicalmente diferentes e até conflitantes, Divaldo escolheu a briga ao invés da conciliação. Transformou-se em uma voz duramente conservadora quando, em suas palestras, tinha esclarecimento suficiente para desarmar a união da força e da violência e estimular nas pessoas- como, aliás, é o que também prega Jesus ao falar do conhecimento da verdade- a distinção entre o certo o errado, o bem do mal, a verdade da mentira.
Porque parte das nossas vidas também é uma luta pessoal para o crescimento em sabedoria, onde aprendemos a conviver e negociar com tipos de pluralidades cada vez mais complexas.
Divaldo Franco, porém, radicou-se no bolsonarismo, juntou-se àqueles que ameaçam formas de socialização, incluindo o convívio familiar. Famílias se dissolveram no bolsonarismo porque a discordância foi tratada como crime. São órfãos vivos da intolerância. A vida se tornou mais difícil numa pandemia onde 700 mil pessoas morreram incentivadas por um presidente da República a não se vacinarem nem a tomarem os cuidados necessários, dando ares de cinismo às iniciativas da ciência para o bem estar social.
Um presidente cujo charlatanismo na saúde sequer foi combatido pelo Conselho Federal de Medicina. Nem pela Federação Espírita Brasileira. Nem por Divaldo Franco.
Algum tipo de vida comum poderia ser cultivado num momento tão grave quanto este. E com a vida do ser humano ameaçada, Divaldo Franco não se tornou a voz da boa politica. Em 2017, estava o líder espírita ao lado do prefeito de São Paulo João Doria lançando uma ração humana, feita com alimentos perto de irem para o lixo ou do lixo mesmo, oferecida, lógico, aos que não têm moradia digna e acessível, um emprego bem remunerado.
Em resumo: aos tratados como derrotados e fracos pelo capitalismo.
O bom dever da política não é uma maldição, mas Divaldo Franco ajudou a espalhar que a esquerda brasileira não deve ser amada mas combatida. Como, aliás, fazia a TFP. Num sistema que beneficia poucos ou aqueles com mais dinheiro, Divaldo teria como dizer que todos merecem uma qualidade de vida decente, sem serem cevados por rações de oportunistas como Doria.
As formas justas e generosas de vida em comum permanecem na lista de necessidades de todos nós.
Por fim, o bom dever da política- esse que dá respostas para além das casas espíritas e essencial para vivermos bem- foi negligenciado por Divaldo.
Batalhemos, então, por mais justiça e menos discriminação. Aprendendo a aprender.




