Dilma critica o neoliberalismo

Boff manifestou ceticismo diante do texto preparado pela ONU para a Rio+20, que reunirá na capital fluminense, em junho, chefes de Estado e a Cúpula dos Povos, evento da sociedade civil

Frei Betto-Correio Braziliense

“A  senhora, presidente Dilma, foi corajosa ao escolher participar do Fórum  Social Temático de Porto Alegre, e não do Fórum Econômico de Davos”,  enfatizou João Pedro Stedile, líder do Movimento dos Trabalhadores  Rurais sem Terra (MST), no encontro com dirigentes de movimentos sociais  e organizadores do FST, na capital gaúcha, na tarde de quinta 26 de  janeiro.

Pouco antes, na suíte presidencial do Hotel San Rafael,  Dilma Rousseff recebeu o ecoteólogo Leonardo Boff, a mulher dele, Márcia  Miranda, e a mim, acompanhados do ministro Gilberto Carvalho.

Boff  manifestou ceticismo diante do texto preparado pela ONU para a Rio+20,  que reunirá na capital fluminense, em junho, chefes de Estado e a Cúpula  dos Povos, evento da sociedade civil.

O Esboço Zero, como é  conhecido o texto da ONU, é inconsistente; fala em pobreza, mas evita  abordar a desigualdade social e alardeia a “economia verde”, mera  falácia para evitar atacar a principal causa da devastação ambiental: o  atual modelo predatório de desenvolvimento, baseado na prevalência da  riqueza privada sobre direitos humanos e direitos da mãe terra.

Às  vésperas da viagem da presidente a Cuba, aproveitei para breve análise  da conjuntura daquele país, que passa por mudanças substanciais, e no  qual atuo, desde 1981, nos temas relações Igreja e Estado e metodologia  da educação popular. Neste 9 de fevereiro, estou na ilha para participar  do Congresso de Educação Superior e proferir palestra sobre Extensão  Universitária e Educação Popular.

No encontro com 70 líderes de  movimentos sociais, Dilma ouviu seis oradores. Enfatizou-se o repúdio às  mudanças no Código Florestal aprovadas no Senado; reivindicaram-se o  veto à anistia aos produtores rurais responsáveis por crimes ambientais,  a manutenção da reserva legal e a exigência de desmatamento zero. Ao  responder, a presidente disse, com todas as letras, que o Código  Florestal “não será o dos sonhos dos ruralistas”.

Foram propostos  um Programa Nacional de Reflorestamento para a Agricultura Familiar,  financiado pelo BNDES; maior empenho na reforma agrária, de modo a  assentar 180 mil famílias que continuam acampadas à beira de estradas; e  a adoção, em larga escala, da agroecologia, para reduzir drasticamente o  volume de agrotóxicos utilizados nas lavouras brasileiras, envenenando o  solo e os consumidores.

Sublinhou-se ainda a urgência de regularização das terras indígenas e ocupadas por comunidades quilombolas.

Dilma  iniciou sua intervenção frisando que representa um projeto de governo,  iniciado pelo ex-presidente Lula, cujos objetivos centrais são reduzir a  desigualdade social e imprimir qualidade aos serviços públicos, em  especial à saúde, educação e habitação. Acrescentou que, após o fracasso  de governos precedentes e tendo em vista a crise europeia, “o Brasil  está vacinado contra o neoliberalismo”.

Para a presidente, só foi  possível tirar da pobreza 40 milhões de brasileiros, nos últimos nove  anos, graças ao modelo de desenvolvimento sustentável que combina  crescimento econômico com distribuição de renda. Criticou aqueles que  consideram razoável o Brasil crescer apenas 2% ou 3% ao ano com baixo  índice de inflação. É preciso crescer mais, gerar riquezas e aquecer a  economia interna com distribuição de renda.

Neste momento,  enquanto na Europa se processam uma “perda de direitos sociais” e a  adoção de ajustes fiscais, declarou Dilma, o Brasil — para o qual Davos  olhou com uma ponta de inveja — adota uma política de subsídios a  direitos fundamentais, como o acesso à moradia, e a combinação de  transferência de renda com qualificação dos serviços públicos.

Dilma  considerou “uma barbárie” a desocupação das 1.700 famílias de  Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), e manifestou a esperança de  que a Rio+20, sobretudo por meio da Cúpula dos Povos, apresente à crise  global um novo paradigma, “um outro mundo possível”.

Alertou ainda  que o pós-neoliberalismo não pode coincidir com a pós-democracia…  Manifestou, assim, o temor de que medidas tomadas para superar a crise  financeira mundial “tornem as agências de risco econômico mais  importantes do que os povos que elegeram seus governantes”.

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