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Dilma, a crise e o presidencialismo de coalizão

Tereza Cruvinel-Jornalista, colaboradora do Correio e titular do blog Tema Livre-Correio Braziliense

Apesar  da estrepitosa trombada com sua base parlamentar e das retaliações  sofridas, a presidenta Dilma Rousseff tem negado a existência da crise e  deliciado certo pensamento antipolítico ao reiterar que “não cede a  pressões”. A negação, retórica ou real, aumenta as preocupações (fortes  no PT) com este voo solo e conflitivo, rota que pode ser acentuada pela  pesquisa que vem aí, apontando nova alta em sua popularidade.

Ficou-nos  do general prussiano Carl von Clausewitz a lição de que até mesmo a  guerra é comandada pela política, formulação que muito interessou a  Lênin ao definir a revolução como extremo da política. Por isso é  preocupante qualquer entendimento de que a política não deve comandar a  própria política, ou seja, as relações com os partidos e o Parlamento e a  dinâmica do processo legislativo.

Além do desconforto da  presidente com as exigências da política, os fatos recentes explicitaram  uma diferença essencial entre Dilma e o ex-presidente Lula, para além  dos contrastes festejados pelos antilulistas que destacam na presidente  atributos como a elegância litúrgica e a palavra contida. Vê-se que eles  têm compreensões muito distintas sobre a natureza e as exigências de  nosso presidencialismo de coalizão, essa feliz expressão com que o  cientista político Sergio Abranches definiu nosso regime  político-partidário e suas condicionalidades. Frustrando os que  apostaram no fracasso de seu governo, Lula (ainda tendo Dirceu a seu  lado) entendeu os ditames da coalizão e a importância da credibilidade  (interna e externamente) da moeda e da política econômica. Compartilhou o  governo até com ex-adversários e beijou o altar de fundamentos  econômicos que ele e o PT haviam negado.

Na fase democrática que  vivemos, Sarney governou sob o tacão de um PMDB hegemônico, liderado por  Ulysses Guimarães, mas garantiu a coabitação com o PFL criado pelos  dissidentes da ditadura para garantir a eleição de Tancredo no Colégio  Eleitoral e viabilizar a transição. Collor ignorou as condicionalidades,  e na hora H, isso pesou a favor do impeachment. Itamar teve claríssima  compreensão do próprio papel e montou um governo de conciliação, no qual  só faltou o PT, que preferiu ficar fora (e disso Lula já se  penitenciou). Fernando Henrique e o PSDB frustraram parte da base social  tucana ao se aliarem ao PFL. O ex-presidente explicou à exaustão que,  no Brasil, um partido até pode ganhar sozinho, mas não governa nem  promove mudanças, como ele fez. Lula escolheu outros parceiros, mas  seguiu a receita, assegurando a governabilidade e novos importantes  avanços para o Brasil.

Dilma, tida como essencialmente gestora e  técnica, dá sinais de desconforto com as regras do presidencialismo de  coalizão. Reagindo a denúncias de irregularidades, afastou seis  ministros, de partidos diversos. Colheu aplausos da mídia e desgaste com  os aliados, especialmente o PMDB. Recentemente, ela neutralizou um  aceno que fizera aos aliados, quando chorou (contidamente, é claro) ao  empossar o senador Crivela, do PRB, no lugar do petista Luiz Sérgio.  Quando lamentou as imposições da governabilidade, revelou o desgosto com  os comandos da política. Na semana passada, após a rejeição do Senado  ao nome que indicara para uma agência reguladora, ela pôs fogo na  fervura ao substituir os líderes do governo nas duas Casas de modo  unilateral, quase imperial.

Um bom conselheiro teria dito que isso  não se faz assim. Ato contínuo, o PMDB indicou o defenestrado Romero  Jucá para o estratégico posto de relator do Orçamento. Para seu lugar,  Dilma apontou o senador Eduardo Braga (AM), da ala minoritária do PMDB.  Na política, isso é antinatural. A escolha ainda ajudou a empurrar para a  oposição o adversário local Alfredo Nascimento e seu PR. Na Câmara,  Dilma substituiu Cândido Vacarezza, da ala majoritária do PT, por  Arlindo Chinaglia, que, como o presidente da Casa, é de ala minoritária.  Não pode o PT estar feliz se os dois cargos mais importantes estão com a  minoria. Mas, nesta altura, essa questão ficou menor. A preocupação  real é com a possibilidade de Dilma manter a rota altaneira,  amparando-se na popularidade e na economia para rejeitar os ditames da  política. Aquela que comanda até a guerra.

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