Na prisão, ele pensava em fugir. Descobrir um plano para isso seria quebrar uma convenção. Presos são castigados para se arrependerem. Danem-se quem pensa assim.
Ele não se arrependia. Porque o julgamento foi absurdo. Ele foi condenado a pena de morte. O júri, porém, chocou-se não com o assassinato que ele cometeu e confessou para todos. Mas por não ter tido remorso pela morte natural da mãe, aceito convite para ir a praia com os amigos quando deveria estar de luto.
Como é isso? A mãe morreu e ele vai a praia com os amigos e a amante, em devassidão?
Ora, a mãe estava velha e ranzinza. Não havia mais espaço para os dois abaixo do mesmo teto. Também ele não tinha dinheiro para sustentá-la. Um ou outro tinha de sobreviver ali. Escolheu ele mesmo.
A mãe foi posta no asilo. No início, ela chorou porque quebrou-se um hábito. Logo a mãe gostou do asilo. Imaginou que, se ela fosse tirada dali, choraria. Porque se habituara naquele depósito de vidas esperando a morte.
A gente se habitua a qualquer coisa.
A mãe morreu, ele recebeu um telegrama do asilo, viajou para lá. Velou a mãe, sem lágrimas. A viagem foi cansativa, o calor insuportável. Estava cansado. Não quis ver a morta. Preferiu o caixão fechado nas despedidas.
Sua indiferença virou argumento no tribunal. As pessoas costumam exagerar o que não conhecem. “Eis aqui a imagem deste processo. Tudo é verdade e nada é verdade”.
A indiferença teria de ser disfarçada. Ele não acreditava também em Deus. Como alguém assim, sem Deus no coração e sem chorar pela mãe, conseguia respirar?
Melhor seria puni-lo severamente. Os homens são esquisitos, mas mãe e Deus são sagrados.
Condenado a morte, lamentou apenas não ter tido atenção suficiente para um plano de fuga. Recusou o padre na cela. O padre insistiu, apareceu sem autorização. Foi levar Deus ao seu desespero. Não estava desesperado. Queria apenas viver sua vida. O padre não aceitou o desvio deste padrão de normalidade. Todos os presos buscam Deus. Por que ele queria ser diferente?
Avançou, afinal, no padre. Foi contigo pelo guardas. Descarregou suas dúvidas naquele prisioneiro de batina. Virou ódio. No dia de sua execução, queria apenas que houvesse público. Pessoas cheias de ódio por ele.
Na prisão descobriu que era feliz. Porque era gente como a gente.
(Breves palavras sobre O Estrangeiro, de Alberto Camus)




