A situação de abandono dos municípios alagoanos beira o insuportável. Cada povo vai encontrando recursos próprios para sobreviver à onda de opressão envernizada de legalidade, ao modus operandis de cada gestor ou gestora local.
O Blog recebeu um pequeno texto, intitulado “Cidade pede socorro”, vindo do sertão alagoano, rincão historicamente marcado pelo intenso coronelismo, no qual me fala sobre a forma encontrada pelos cidadãos para expressarem seus desgostos com as políticas locais:
“A população de Carneiros ultimamente tem se manifestado através de cartas anônimas, nas quais apresentam suas críticas, insatisfações e injúrias à respeito da gestão pública municipal.”
Pode ser interpretado como ação covarde, por quem está fora do contexto, não conhecendo o teor de destruição nas práticas perseguidoras dos poderes localizados nos municípios alagoanos, tema que desde sempre me interessou, por sentir na pele, desde tenra idade, os efeitos desumanos que essa cultura provoca. O escritor carneirense continua:
” As tais cartas são deixadas em pontos estratégicos da cidade onde certamente serão multiplicadas, visto que as pessoas têm o maior prazer de copiar e divulgar as notícias como se tivessem indo à forra quando é relatado algo de seu interesse. Essa forma de comunicação teve início na gestão anterior e muitos achavam que as edições cessariam com a derrota do candidato apresentado pelo prefeito anterior. Puro engano. As pessoas não só continuaram com as cartas como detonam desde o início do ano a nova administração, principalmente no que diz respeito ao slogan da campanha do prefeito eleito, que é Governo da Mudança porque a única coisa que mudou foi o sobrenome de Agra para Nobre e as cores das repartições que antes era verde e agora é amarelo e vermelho.”
Se a linha traduz o linguajar cotidiano, reproduzindo terminologias como “detonam”, prova a originalidade da escrita local. Ao mesmo tempo em que revela a ausência de entidades representativas desses clamores. Ao deus-dará-da-sorte-ingrata, aqueles e aquelas que conseguem desenvolver algum teor de pensamento crítico, optam pela cortina do anonimato para refletir as questões políticas, incentivando a população a pensar sobre seus dramas. Essa prática não é nova, no correr da história da humanidade muitos povos se utilizaram dela para denunciar opressores. Se a mesma não é legal, contudo, conserva a legitimidade da intenção enquanto protege o vulnerável cidadão sertanejo.
Nosso crítico eleitor, nos esclarece os dramas do sertão (que infelizmente contemplam todas as regiões alagoanas):
“Os erros são os mesmos. A politicagem é a mesma. O favoritismo pelo voto é o mesmo.”
“A Câmara de Vereadores é quase a mesma. Cada vereador nessa cidade é reeleito por 4, 5 até 6 mandatos consecutivos.”
“Aqui não precisa ter nenhuma formação/conhecimento das exigências que o Legislativo exige não. Basta ser letrado, ter uma boa poupança para gastar na campanha e saber barganhar com o gestor quando precisar de sua assinatura para aprovar um projeto que favoreça-o totalmente, não importa se é bom para o povo, afinal o povo é o povo, na próxima eleição gasta-se outro montante e é só correr para o abraço… e para o povo!”
Que de carta anônima os clamores alagoanos tornem-se cartas abertas, rasgando as desditas da nossa política de amálgamas econômicos a sustentar a opressão que devasta o sonho e restringe a vida, deixando Alagoas sem educação, saúde, moradia e cidadania!