Naquela manhã de sol roubei sua imagem. Guardei entre outras que também conversaram comigo. Agora lhe devolvo multiplicidades, representações e solidariedades.
Falo da moça que carrega sobre si o peso de uma história que desconhece. A nascida mulher, herdeira dos serviços domésticos e dona dos passos cambiantes que buscam futuro, qualquer que seja.
Muitas outras donas da mesma herança foram assassinadas por seus maridos, após terem sido entregues por seus pais ao cumprimento da sina. Ainda menina a mulher deste lugar aprende a ariar panela, descer bibocas e nadar vestida.
Aprendizados básicos, coisas importantes para suas vidas continuarem vivas. Mas tudo se resolve em família!
Pouco estudo, muito serviço, pois ela sequer trabalha. Boca a mais, do tipo que atrapalha. Corpo maldito na eterna vigília imaculada. Morre na ponta da faca, na sanha da bala.
Sem arroubos no vocabulário, sem escrita, sem viagens, sem promessas outras, senão aquelas velhas conhecidas: uma barriga atrás da outra, explodindo a mesma vida.
Ontem distante conservado na oração. Mulher que carrega no corpo o grilhão, a reprodução, a humilhação. Nesta vida não há “não”. Por acaso você sabe o quanto custa ser posta na rua? Conhece outras curvas além das suas?
Estas vidas bordadas no risco ainda encontram risos, e distribuem bençãos. De menina a moça feita, em dois segundos se transformam. Agora mulheres, amanhã mães e logo avós serão.
Uma moenda de sonhos alardeia a doçura do mel enquanto condensa as almas em diminutas caixas. Depois tudo é sequência, contando histórias à mesa, após o jantar reza e deita. Amém.





