Sílvia Matos- O Globo
A economia brasileira cresceu 2,7% no ano passado. E as previsões para o PIB em 2012 sinalizam para uma taxa superior aos 3%. Mas será que existem riscos para este cenário? Na nossa avaliação, a resposta é sim.
Em primeiro lugar porque o carregamento estatístico (carry over) para este ano é de apenas 0,3% – muito pouco se comparamos com as contribuições de 2010 e 2011, de 3,7% e 1,6%, respectivamente. O que quer dizer que, se a economia não crescer em 2012, o PIB crescerá só 0,3% em relação a 2011.
Em segundo lugar, os indicadores de atividade econômica do começo do ano mostram, ainda, uma modesta recuperação.
É importante ressaltar também que, mesmo que a indústria de transformação (com peso de 14,6% no PIB) cresça 1% por trimestre, a expansão no ano será zero. Ou seja: a recuperação terá que ser muito forte para que a indústria de transformação tenha uma contribuição positiva para o PIB em 2012.
Com a indústria de transformação não apresentando um bom desempenho de onde virá o crescimento econômico? De outros segmentos industriais esperam-se bons resultados como na indústria extrativa mineral, com crescimento previsto da ordem de 4%, e da construção civil, com 4,5%. Se essas previsões vingarem, o PIB industrial este ano poderá crescer em torno de 1,7%, pouquinho acima dos 1,6% de 2011. É bom lembrar também que a agropecuária, com uma participação de 5,5% no PIB, não deve ter a mesma saúde do ano passado, quando cresceu 3,9%. Este ano poderá não crescer 2%.
Mas será o setor de serviços (participa com 67% da formação do PIB), uma vez mais, que trará a maior contribuição para que o PIB engorde. Crescendo a uma taxa de 1,1% por trimestre, o setor fechará o ano com um aumento de 3,2%. Com tudo isso, consolidando essas projeções, chegaríamos a um crescimento do PIB em 2012 a modestos 2,7%, o mesmo de 2011.
Não está fácil crescer muito acima de 3%, o que naturalmente não agrada ao governo. A solução é tentar acelerar a economia de todas as formas, principalmente o consumo, mas sem elevar as importações de bens para fomentar a indústria doméstica. Mas esta estratégia pode pressionar ainda mais a inflação e comprometer o crescimento do ano que vem.
O novo pacote anunciado recentemente pelo governo para o setor industrial aponta na direção correta, mas, infelizmente, não será suficiente para elevar a produtividade da indústria. O baixo crescimento do ano passado e provavelmente deste ano é resultado dos excessos de 2010. Incentivar a demanda sem reduzir a ineficiência do sistema produtivo brasileiro não vai gerar um crescimento sustentável. Não podemos repetir os erros do passado.