Cooperação para o desenvolvimento

Álvaro Marchesi Ullastres- Valor Econômico

Vivemos tempos de crises nos quais aparecem, como indiscutíveis, alguns ajustes dolorosos, que reduzem os serviços sociais e o bem estar de boa parte da sociedade. Nesta situação, não é estranho que surjam vozes contrárias ao uso de recursos dos poderes públicos para ajuda e cooperação com outros países de menor desenvolvimento econômico e social. A mensagem de um setor da sociedade alemã em relação aos países do sul da Europa – que trabalhem mais e que gastem melhor – parece que se repete nos países mediterrâneos quando pensamos em países mais pobres que os nossos.

Embora sejam visões compreensíveis, temos de raciocinar e argumentar na direção contrária: nestes tempos de crises e apesar das dificuldades, temos de continuar solidários, cada um segundo suas possibilidades: o governo, as instituições, as empresas e os cidadãos. Há três tipos de razões que abalam essa situação.

Em primeiro lugar, aquelas relacionadas com a justiça e com a coesão social. Neste mundo globalizado e interdependente, o que ocorre naqueles países mais longínquos não nos pode deixar indiferentes. Devemos tentar compensar com nosso esforço solidário as escassasoportunidades de partida que muitos deles tiveram. Mas também precisamos ser conscientes de que seus problemas e seus atrasos não permanecerão distantes de nós e nos interpelarão em repetidas ocasiões, acabando por nos afetar.

Em tempos de crises, temos de continuar solidários, cada um segundo suas possibilidades

Em segundo lugar, há razões vinculadas com a educação das futuras gerações. A educação em valores solidários é uma exigência para todas as escolas e professores e também para o conjunto da sociedade. Nesse campo, pouco vão aprender nossos alunos em um entorno social no qual a preocupação pelos outros não gozará de respeito nem alento. Os valores se aprendem por meio do conhecimento e da reflexão, mas também e principalmente pelo exemplo, o desenvolvimento da sensibilidade e a ação comprometida.

Há que reconhecer e agradecer que nossas escolas, inclusive nestes tempos difíceis, manifestem de forma majoritária um grande senso de solidariedade. Um bom exemplo se manifestou há poucas semanas quando a Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI), junto com numerosas fundações e empresas, apresentou o projeto Luzes para Aprender, cujo objetivo é levar eletricidade e conectividade a 62 mil escolas ibero-americanas que ainda não dispõem dela. A resposta das comunidades educativas para participar de alguma maneira deste projeto tem sido admirável.

Finalmente, devem ser destacadas razões institucionais para defender a importância da cooperação para o desenvolvimento. Temos de lembrar que as principais decisões que afetam a economia e o bem estar dos cidadãos são adotadas em organismos e em foros internacionais. Não podemos demandar o apoio dos demais se nós não nos manifestamos perante os desafios mundiais, desde iniciativas de paz às quais acorre nosso exército, até catástrofes provocadas por guerras ou por desastres naturais. Essas ações solidárias exigem recursos econômicos e servem para ajudar os países e os povos, mas não esqueçamos que também facilitam o reconhecimento da presença ativa da Espanha no mundo.

Essas três razões têm um valor e uma força especial quando nos referimos aos países ibero-americanos. Formamos uma mesma comunidade com uma língua e uma cultura comum; mantemos estreitas relações entre os diferentes países, o que nos faz sentir uma especial proximidade com seus cidadãos; existem, também, vínculos econômicos muito amplos e mantemos relações diplomáticas privilegiadas, que se concretizam em relações bilaterais e multilaterais enormemente fecundas e que se manifestam nas conferências de ministros e nas cúpulas de chefes de estado e de governo. Somos, junto com Portugal, os dois únicos países que nos sentimos e somos ao mesmo tempo ibero-americanos e europeus, o que nos oferece uma excelente oportunidade para favorecer a relação entre ambas as regiões do mundo.

A partir dessa perspectiva, não é fácil explicar por que nossa cooperação com os países ibero-americanos tem se reduzido de forma tão drástica este ano, embora possa entender-se sem dificuldade que o foi em proporção similar à sofrida pelo resto dos ministérios. Graças à ajuda espanhola para a cooperação em anos anteriores, a OEI tem podido alfabetizar e garantir a educação básica a milhares de jovens e de adultos; tem impulsionado numerosas cooperativas de jovens empreendedores para atingir sua inserção laboral; tem contribuído para melhorar a qualidade do ensino; e tem conseguido, finalmente, com a colaboração e o esforço de todos os países, chegar a um projeto comum adaptado à realidade e à diversidade de cada um deles: “Metas Educativas 2021: a educação que queremos para a geração dos bicentenários”. Um projeto que está sendo uma referência e um estímulo para o compromisso coletivo e a identidade dos países ibero-americanos.

Este ano em que a Ibero-América se reúne em Cádiz para comemorar a primeira Constituição espanhola, que assumiu compromissos sociais tão importantes como a extensão da educação primária a todos os povos da monarquia espanhola, é um bom momento para a análise e a reflexão sobre o futuro. É importante, pelo bem dos países ibero-americanos, mas também pelo nosso, que reforcemos os vínculos entre todos e que manifestemos nosso reconhecimento, nosso apreço e nossa valorização de uma comunidade ibero-americana ainda em construção. Para conseguir isso, ajudará muito se assumirmos um compromisso de cooperação equilibrado e sustentável para os próximos anos, que situe a lembrança dos orçamentos para a cooperação em 2012 como um obstáculo, talvez intransponível, do qual temos sido capazes de sair entre todos e com o consentimento da grande maioria dos cidadãos espanhóis. É uma iniciativa justa e necessária que nos permitirá sentir valiosos perante a comunidade ibero-americana e perante nós mesmos.

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