Escrever sobre as construções de gênero é tão desafiador quanto dar braçadas mar adentro.
É gigante. É fugidio ao olhar, por possuir ângulos além, deixando a sensação de não conseguir mesmo satisfazer a busca, nos levando a agendar investidas futuras.
Sororidade, o que é?
Sou capaz, enquanto mulher, de aplicar o meu melhor em todas as situações que envolvam mulheres, simplesmente por elas serem mulheres?
Quando Janaína Pascoal abalou meu senso de compreensão, quantos conflitos me tomaram?
Mas entrei em combustão emocional quando tomei conhecimento de casos de feminicídio, mesmo sem conhecer ou saber nada sobre aquelas vítimas. Senti o gosto de sangue em minha própria boca.
Levei todas as minhas ancestrais comigo, em meu corpo, nos meus olhos e sorrisos, quando aderi à Marcha das Vadias e gritei contra a cultura do estupro!
Mas não consigo ter nenhuma empatia com o sorriso amarelo da Michele Bolsonaro, que é mulher e vive cercada de situações repugnantes, muitas das quais ela mesma é acusada de envolvimento.
Empática então eu me torno com as mulheres que lutam contra descriminalização do aborto, mesmo sendo incompreendida por muitas pessoas que professam a fé cristã. Vejo o turbilhão que envolve as mulheres criminalizadas, isso me desperta solidariedade genuína.
Não suporto a maneira como a Keiko Ota manisfesta sua representação de mãe de filho assassinado para fortalecer a politicalha paulistana, imiscuindo uma luta sagrada em contexto venal. É uma mulher, mãe, política, que não me desperta essa proximidade existencial, apesar do que representa.
Não me coloco como parâmetro de nada, no entanto, como falar sobre esse tema sem consultar minhas entranhas?
A raiva que me fez enfrentar duas médicas que se recusaram a atender uma mulher em um quadro gritante de sintomatologia ginecológica, foi sororidade com a paciente?
Mas as médicas também eram mulheres.
Há um largo caminho entrecortado por labirintos conceituais, ora orientando e em outro instante confundindo os nossos passos e escolhas.
Mas é inconteste o fruto da experiência de sororidade quando nós mulheres nos permitimos filtrar as moléstias trazidas pelo patriarcalismo, e resistimos em nossas convicções libertárias/humanitárias com recorte de gênero.
Mesmo que muitas de nós se enquadrem nos sistemas considerados majoritários, como simples peças de aniquilamento de outras de nós, conquistar a percepção de nós mesmas nas histórias e lutas das mulheres, nos distingue em sensibilidade social e histórica.
O machismo não logrará nos tornar a todas “encaixadas”, e nada será mais encantador do que o instante do encontro conosco, em tantas outras.
Ainda que existam conflitos, ser mulher é aprender a lidar com eles, desde sempre. Transformando todas as matérias em expressões de vida, tecemos a eternidade.





