Os mais novos números do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) indicam que Alagoas tem uma das

piores colocações no País na qualidade do ensino público. Só que o Estado, também líder em analfabetismo, enfrenta um problema bem pior: dez mil alunos da rede estadual de ensino estão sem aulas porque 163 escolas ameaçavam cair e tiveram de ser reformadas por emergência.
É o caso da escola estadual Rosalvo Lôbo, no bairro de Jatiúca, em Maceió. O teto da sala de informática caiu no início do ano. E os técnicos perceberam que os cupins infestavam toda a madeira. Resultado: interdição do prédio.
As reformas começaram há três meses.
Enquanto isso, os 786 alunos deveriam voltar às salas de aula nesta segunda-feira, 14, mas em outra escola. Como as reformas na Rosalvo Lôbo só terminam em fevereiro, os alunos vão estudar em tendas climatizadas na escola Théo Brandão.
“Os alunos da Théo Brandão fecharam a escola e não querem os alunos da Rosalvo Lôbo por lá. Eles dizem que as tendas ficam instaladas na área de educação física deles”, disse uma professora, sem querer se identificar.
“Mas, a Secretaria [de Educação e Esportes] ligou e resolveu o problema. Começam na próxima segunda-feira”, disse, após desligar o telefone.
Felipe Matheus, de 16 anos, foi à escola de bicicleta para saber quando começariam as aulas. Desde maio espera o início do ano letivo. Ele está no 8o ano.
“Fico em casa no PC [computador]. Ou então andando de bicicleta. Não faço nada”, disse.
E já se acostumou com a ideia de estudar em tendas? “Sei não. Se não tiver jeito, vai ser assim. Não posso ficar sem estudar”, afirmou.
Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Estado da Educação e do Esporte, houve atraso nas obras porque a empresa inicialmente contratada não cumpriu com os prazos. Um novo contrato foi assinado com outra construtora e a obra foi reiniciada na última segunda-feira (06).
A conclusão do processo de montagem das tendas está prevista para a próxima sexta-feira e as aulas serão retomadas na segunda. Ainda de acordo com a assessoria, o período no qual os alunos ficaram sem aulas será reposto, a fim de não prejudicar o ano letivo.
Ao todo, 163 escolas tiveram de ser reformadas emergencialmente. O Ministério Público Estadual investiga irregularidades nos contratos- entre elas, superfaturamento das obras. Atualmente, 34 escolas na capital e no interior ainda estão continuam em obras. Em 19, o ano letivo não começou.
Em Alagoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um em cada quatro estudantes não sabe ler nem escrever. E de acordo com o Ministério da Educação, Ideb- o índice que avalia a qualidade do ensino- em Alagoas é um dos piores do Brasil.
São números que acabam gerando outros recordes. Alagoas é líder, no Brasil, em assassinato de jovens e crianças. Sete em cada dez homicídios, segundo a Polícia Civil, tem envolvimento com drogas.
“Para entender as razões deste processo, é só a gente olhar a qualidade do serviço público oferecido em Alagoas. Os cargos comissionados são preenchidos por indicações políticas e o foco na palavra ‘Educação’ acaba ficando em segundo, terceiro ou quarto plano”, disse a educadora e cientista social, Ana Cláudia Laurindo.
“Vai se colocando qualquer um. Por isso, nada justifica chegarmos ao século XXI com uma criança de dez anos, matriculada e estudando em uma escola pública, sem saber ler nem escrever. É uma cena comum. Só o descaso explica isso”, afirma.
O secretário de Educação e Esportes, Adriano Soares, não quis se pronunciar sobre os novos dados do Ideb. Sobre os problemas na pasta, Soares admite os números negativos e diz que a educação alagoana está sendo preparada “focando o futuro”. A resposta dele foi dada em um texto publicado na rede social Facebook:
“Desde o início venho afirmando: 2012 será um duro ano de travessia, de mudanças, de problemas. Estamos focando no futuro, que já começa agora. Estamos trabalhando com foco, com perseverança e determinação. E dando a cara para bater, porque temos orgulho do que estamos fazendo”, disse o secretário.