Coaracy Fonseca: Os ladrões

Coaracy Fonseca é promotor de Justiça e ex-procurador Geral de Justiça de Alagoas 

As garrafas de uísque chegavam em caixas coloridas, que seriam usadas ao final, após o martelo da vitória. Serviram de disfarce para as cédulas de baixo valor, que facilitavam a circulação.

Eles haviam vencido de lambuja. O dinheiro para a paga não era problema. Os contribuintes eram milhares e não se preocupavam com o destino do suor derramado. Sempre foi assim!

A vitória chegava sem contenda ou adversário. Os ladrões haviam adotado todas as providências públicas para ao menos engessar os que eles tinham por inimigos, pensavam.

O labéu histórico da vergonha seria suportado pelos pretores, que, no alto dos tamancos, não se preocupavam com a posteridade, haveriam de encontrar um culpado, uma falha qualquer, um vício, suficiente para justificar o enorme valor solapado.

Até a hipocrisia fora jogada às cracas, não havia nada a preservar. Virtude era uma invenção dos gregos antigos. Deles só restam apenas palavras.

A ética é imaterial e invisível aos olhos daquela sociedade sem recato. O festim dos ladrões seria prolongado e farto. Sempre foi assim!

Ah, uma notícia parecia abalar toda a farra: uma criança havia morrido de fome há poucos instantes.

Sempre foi assim!

E Deus? Virou também mercadoria para as pessoas de boa-fé.

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