Coaracy Fonseca: O absurdo nos cerca

Coaracy Fonseca é promotor de Justiça e ex-procurador Geral de Justiça

Um instigante artigo de Ignácio de L. Brandão, autor do livro distópico “Não Verás País Nenhum”, escrito há 40 anos, aproxima a percepção de um intelectual arguto sobre o momento em que vivemos e o que ele mesmo escreveu há quase meio século.

Mas há algo que o escritor não focalizou em seu artigo: a sugestão de um ilustre ministro do TCU, autoridade da mais alta qualificação, sobre o denominado “Fura Teto”, por um período de 3 a 5 anos.

Falar do alto índice de desemprego, da inflação galopante, da fome, do aumento dos preços dos alimentos e do combustível é algo desolador, mas furar o teto de gastos, para quem entende um pouco de finanças públicas, é reconduzir-nos aos tempos sofridos do Governo Sarney ou algo pior.

É transformar o Brasil em terra arrasada. A LRF, mesmo imposta pelo FMI, trouxe para o nosso País um ajuste necessário das contas públicas, que permitiu a estabilidade da moeda e a queda brusca da inflação. Tornou o orçamento público um instrumento transparente.

A história não pode ser injusta, nesse ponto, com o ex-presidente FHC e outros ex-presidentes que respeitaram as balizas legais e promoveram o progresso do País.

Por isso que a sugestão de furar o teto das contas públicas causa-nos a percepção de que o nosso país será levado à ruína total, talvez pior do que sentimento que moveu Ignácio de L. Brandão ao escrever o seu clássico livro.

É verdade que muitos brasileiros estão descrentes da política e buscam com certa ansiedade uma solução anômala, que não venha da arte de realizar o bem comum, juntando retalhos ideológicos e interesses plurais, uma procura sem êxito.

Só a boa política pode nos salvar de um imenso desastre. Odiar a política é um grande erro de compreensão. A CPI do COVID, sem ingressarmos em detalhes sobre quem errou – é missão das autoridades competentes -, trouxe um grande avanço na vacinação e salvou muitas vidas; uniu antigos adversários em prol da sociedade.

Finalmente, acredito que só a boa política pode nos salvar de uma catástrofe anunciada. A esperança é o nosso maior consolo e dela não podemos desgarrar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.