Coaracy Fonseca escreve: O Moreno

Coaracy Fonseca é promotor de Justiça e ex-procurador Geral de Justiça de Alagoas 

Dispensou a primeira refeição, logo aos primeiros raios do sol, estava cioso, em demasia, com as formas; pôs-se defronte ao espelho, numa busca medonha de imperfeições, parecia enamorado de si mesmo.

Dividia o pensamento, amiúde, com a mulher que o agoniava às noites e os dias, trazendo torce má ao seu peito. Estava à beira da insensatez.

Pôs-se a engraxar os sapatos e alinhar os cadarços, como se fora a primeira peça do vestuário.

O terno mantinha impecável; a gravata destacava o conjunto, sem vincos, trazia um colorido discreto. Era impossível de não ser notado.

Voltou-se ainda uma vez ao espelho e iniciou a amaciar o rosto, procurava afastar qualquer nota de rudez; aproveitou e treinou gestos.

Aquela noite era mais que especial, era o momento há muito esperado.

Chegou à casa do Senador Adelmar Libório Cipriano à hora marcada para o grande evento, transbordou em graça e simpatia com as mulheres presentes.

Tornou-se uma miscelânea de ousadia e mistério, elas riam desbragadas dos seus cistes, até as mais duras; enquanto olhavam, de soslaio, os detalhes de seu conjunto. Ele já despertava fantasias.

Houve um instante em que transformou-se em rispidez, como um corcel embanhado e fogoso. No exato momento da chegada do casal.

Ele pôs a mão sobre o ombro do senhor ao tempo em que fitava sem pudor o olhar da senhora. Ela retribuiu com um sorriso lisonjeiro e um olhar de malícia discreta.

As demais senhoras perceberam a sutil mudança e buscaram a sua atenção tão valiosa. Ele as fazia rir e as nutria de sentimentos contraditórios.

Mas ninguém havia percebido o seu hábito de fumar charutos, que o fazia sair em intervalos curtos para algum lugar do casarão repleto de cômodos.

Ele era um mestre do viver. Deixava-as falar displicentemente, sem a frenagem social; ouvia as decotadas com a mais devotada atenção.

Elogiava-lhes a maquiagem, os detalhes dos vestidos, os requintes das jóias, a brandura e a jovialidade. Ousava lhes contar histórias sensuais e os boatos mais recentes. Bebia pouco e comedidamente.

De repente, o Moreno se despede e, por coincidência, ao tempo da saída do casal. O Embaixador já demonstrava um acentuado cansaço. A esposa tinha uma sensação outra, mostrava-se bem altiva, muito atenta.

Foi-se o Moreno e também o casal. A festa continuou na cadência da vida.

As senhoras lançaram hipóteses as mais felinas, temperadas de veneno.

A saída do Moreno as mexeu no ego e no orgulho, não pouparam ninguém.

Ah, a humanidade…

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