Coaracy Fonseca: A fala e o peculato

Coaracy Fonseca é promotor de justiça e ex-procurador Geral de Justiça 

A palavra pode significar o seu último suspiro; o peculato o limiar de uma vida de sabores, de doçuras mil. Ah! Que safadão é o peculato!

Falar no Brasil tem-se tornado a porta da guilhotina ou chave de cadeia. Vivemos um retrocesso civilizatório.

Sem fala não há democracia, a liberdade é posta na sala de castigo, num regime de prisão de segurança máxima. Ora, por que que a fala é tão odiada pelo poder?

Porque a fala transforma e informa sobre coisas que deveriam morrer debaixo do tapete dos salões reais.

Prendam a fala e soltem o peculato, pois este traz riqueza e vida boa, sem trabalho, além de belos discursos em varandas ornadas de oiro, para inglês ver, assim como as leis contra o tráfico negreiro.

Um escritor francês dormia no esgoto para não ser preso pela guarda real. Mas nada é mais forte que uma ideia cujo tempo chegou, diz um ditado alemão.

Soltem a fala, prendam o peculato, pois este nada transforma e tudo destrói, inclusive a esperança, “consolo dos homens”, na feliz expressão de Machado de Assis.

Enfim, como parar o peculato?

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