Coaracy Fonseca- é promotor e ex-procurador-Geral de Justiça
Um filme indicado por um dileto amigo fez-me refletir sobre o que denominamos de real e o que compreendemos por fantasia, ou para os mais técnicos: quando alguém é levado a um processo de desfragmentalização do eu.
O protagonista – não sei se por simbolismo – era um negro que era recebido – com pompa e circunstância – numa casa de brancos ricos americanos, mas não era acolhido como um deles, em essência.
Mas, para ser aceito, precisava metamorfosear-se e oferecer o melhor de si; não de modo espontâneo. Primeiro, era necessário tornar-se um deles (ou acreditar nisso). Segundo, dele desejavam a força física e a potência, que talvez faltassem às demais personagens.
Teve início um teatro de horrores!
Objetos apareciam e desapareciam de repente; pessoas corriam e sumiam como um passe de mágica; negros com hábitos de brancos sussurravam em seus ouvidos, entre a vigília e o sono. A loucura parecia instalar-se em seu ser.
Nada funcionava bem, sequer um prosaico carregamento de um telefone celular, que ele tinha certeza que havia acoplado na tomada. Mas como provar sozinho, sem ser acusado de paranoico? Tratava-se de uma técnica de levar o inimigo à confusão mental e desqualificá-lo como pessoa,
Tentou fugir, em vão. Tudo pronto e preparado para que se lhe arrancassem o que ele tinha de melhor: o vigor físico e a inteligência.
Ele descobriu um baú de fotos e desesperou-se (outros haviam passado pela experiência), não era nada daquilo que havia imaginado, toda a recepção era um engenho mórbido. Mas nem toda realidade, por mais cruel que seja, é doentia, é apenas a verdade que precisamos conviver e aprender com ela.
Dizem que a arte imita a vida; ou será ou contrário? Se tudo o que vem acontecendo no Brasil fosse dito por qualquer pessoa antes, esta seria apodada de esquizofrênica; hoje, não. Os brasileiros sairemos melhores com ela.
E a película americana?
Um amigo, avisado, descobriu e chegou a tempo de salvá-lo (o amigo) do processo de morte e desconstrução do ego. Trata-se uma imagem forte, em um mundo do imponderável. Àquela verdade era destrutiva. Há verdades demolidoras, cuja vivência é fatal. Conhecê-la é fundamental, afastar-se dela é inevitável.
Quando a dúvida bater forte em sua mente e o coração, procure ajuda de alguém qualificado, e siga, se puderes, a sugestão e o título do filme: CORRA.
