Repórter Nordeste

CNJ apura pagamentos irregulares a juizes

Fausto Macedo-Estadão

O  Conselho Nacional de Justiça (CNJ) quer saber quais índices de correção  foram aplicados por Tribunais de Justiça estaduais e os períodos  contemplados para calcular contracheques excepcionais concedidos a  juízes e a desembargadores. Se identificar pagamentos irregulares, o CNJ  poderá propor sanção com base no estatuto do servidor público, que  prevê desconto em folha daquela quantia indevidamente creditada na conta  dos magistrados.

O artigo 46, parágrafo 1.º, do estatuto  disciplina que reposições e indenizações serão previamente informadas ao  servidor para pagamento no prazo máximo de 30 dias, podendo ser  parceladas a pedido do interessado. O valor de cada parcela não poderá  ser inferior a 10% da remuneração, provento ou pensão.

Oficialmente,  a ministra Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça, não se  manifestou sobre a busca aos índices de correção aplicados pelos  tribunais. Mas é certo que o CNJ quer detalhes sobre a composição dos  holerites especiais, quais benefícios foram incluídos na conta e,  principalmente, se eles obedeceram ao prazo prescricional, cujo limite é  de cinco anos.

Em dezembro, o CNJ havia iniciado investigação na  folha salarial do TJ de São Paulo para identificar créditos  extraordinários e o patrimônio dos juízes.

Mas, no dia 19 daquele  mês, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF),  concedeu liminar em mandado de segurança da Associação dos Magistrados  Brasileiros (AMB) e bloqueou a ação sob comando de Eliana Calmon.

A  competência do CNJ foi restabelecida no início de fevereiro pelo pleno  do STF – mesmo assim, o conselho ainda está amarrado por outra liminar,  do ministro Ricardo Lewandowski, que veta o acesso a dados fiscais e  bancários de magistrados.

Naquele intervalo, entre a liminar de  Marco Aurélio Mello e até a decisão final do STF, o desembargador Ivan  Sartori, presidente TJ de São Paulo, tomou a iniciativa de instaurar  procedimentos administrativos sobre pagamentos antecipados.

“Podemos  afirmar que estamos acompanhando as diligências feitas pelo TJ de São  Paulo e, se necessário, a ideia é auxiliar o tribunal para garantir a  ampla transparência desse processo”, anotou um conselheiro do CNJ. “A  corregedoria está dando tempo para que o tribunal faça o seu trabalho. O  CNJ poderá, se for o caso, realizar uma análise desse trabalho. Uma  questão a se verificar é a quebra de isonomia e critérios aplicados para  os cálculos.”

Trezentos magistrados paulistas receberam  pagamentos antecipados. O TJ avalia que apenas 29 casos devem ser  apurados dados os valores repassados – desse grupo, dois desembargadores  ficaram com mais de R$ 1 milhão cada. Essa situação provocou revolta  entre juízes que se consideram “traídos” porque tais pagamentos  privilegiaram poucos.

Redução

A cúpula do TJ de São Paulo defende  a legalidade dos desembolsos, porque “são verbas devidas” a título de  férias e licença-prêmio não desfrutadas. “Não temos nenhuma restrição, o  tribunal está aberto ao CNJ”, declarou o desembargador Ivan Sartori.  “Queremos apurar tudo da melhor maneira possível, com transparência. Se o  conselho tiver dúvidas eu atendo sem ressalvas. Não queremos nenhum  embaraço. A única coisa que não estamos fazendo é externar nomes porque  tem muita gente que recebeu valores pequenos ou até muito bem  justificados. Fica difícil citar nomes porque acaba com a vida da  pessoa. Existem colegas aqui com problemas muito sérios e que nem  receberam valores altos.”

Sartori esclareceu que futuros créditos a  serem concedidos seguirão rigorosamente os índices previstos nas leis  9.444/97 e 10.960/2009 que impõem correção aos débitos da Fazenda  pública. “Isso vai reduzir bem o valor”, observa Sartori.

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