Claudio Weber Abramo- Correio Braziliense
O público de veículos de comunicação, notadamente jornais diários, tem sido crescentemente sujeito a certa modalidade de desvirtuamento da informação. Trata-se do hábito editorial de atribuir, a assessores de imprensa de empresários e de políticos, respostas a perguntas cabeludas que foram dirigidas não a eles, assessores, mas aos empresários e políticos aos quais prestam serviços.
A coisa vai mais ou menos assim: um deputado responde a processo no exterior por manter conta bancária cujos recursos não têm origem. O jornal designa um repórter para ouvir o deputado. O repórter não tenta falar com o deputado. Telefona para o assessor de imprensa que redige uma notinha nestes termos: “O deputado fulano não tem e nunca teve conta bancária no exterior”. No dia seguinte, o jornal publica algo assim: “O assessor de imprensa do deputado fulano disse que este não tem e nunca teve conta bancária no exterior”.
Ora, qual é, precisamente, a base que o assessor de imprensa tem para fazer uma declaração dessas? O que vale a opinião dele em relação a assunto sobre o qual não pode ter informação? Afinal, quem sabe se mantém conta no exterior é o deputado, não qualquer outra pessoa.
Dar espaço para que assessores de imprensa se manifestem a respeito de fatos que desconhecem por completo ou não têm autoridade para abordar tem exatamente o mesmo valor que publicar as opiniões da primeira pessoa que passe pela rua a respeito desses mesmos fatos.
A prática de assessores assumirem papéis que não lhes cabem desvirtua a função da assessoria de imprensa. A principal responsabilidade pelo desvirtuamento é da imprensa ao aceitar que intermediários assumam papéis que não são deles.
A justificativa de existência de assessorias de imprensa em uma empresa, por exemplo, deriva da necessidade de se direcionarem internamente as demandas que vêm da imprensa. Um repórter não sabe necessariamente quem na empresa responde por isto ou aquilo. A assessoria serve, em princípio, para isso.
Outras atividades que assessorias de imprensa oferecem aos clientes incluem “cavar” matérias, arranjar almoços de executivos com jornalistas, pressionar editores em nome da empresa ou órgão público e outras intermediações desse tipo. Alguns limitam a atividade à função primordial, que lhes justifica a existência. Muitos, porém, são, na prática, lobistas, atravessadores, traficantes de influência.
Embora apresentadas como “facilitadoras”, grande parte das assessorias contratadas por empresários e por burocratas do Estado na verdade tem a função de erigir uma barreira entre o fulano e a imprensa. Não trabalham em favor do fluxo de informações, mas no sentido oposto — conforme é unanimemente reconhecido na redação de qualquer veículo de imprensa.
Observe-se que, quando um assessor de imprensa responde algo embromativo à demanda de um jornalista sobre uma empresa (por exemplo), o jornal não escreve que a empresa embromou. É situação completamente diferente do que ocorreria se o veículo contactasse um diretor de empresa (digamos, sobre um acidente ocorrido numa fábrica) e o diretor embromasse. Nesse caso, sem dúvida, o jornal noticiaria que o diretor fugiu à pergunta, esquivou-se etc.
A invasão dos assessores no noticiário compromete gravemente a qualidade da informação, pois eles nada compreendem a respeito dos assuntos que abordam. Quem lhes dá as informações que transmitem é alguém (um político, um burocrata público, um diretor de empresa) que, convenientemente, permanece oculto. É de notar que assessores de imprensa não falam em noticiosos de televisão ou rádio: quem fala é alguém responsabilizável. Por que jornais impressos e noticiosos de internet aceitam o que as tevês recusam?
Como resolver o problema, que afeta diretamente a credibilidade da imprensa? É facílimo. Basta que o diretor do jornal baixe uma ordem que, em essência, exprima o seguinte: a partir de amanhã, é proibido atribuir seja o que for a assessores de imprensa. Se o sujeito procurado não atender a reportagem, é obrigatório escrever que “procurado, o sujeito se recusou a atender a reportagem”. Garanto que bastariam dois dias para que se operassem milagres na disposição de fontes atenderem a imprensa.