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Clãs na política, Vera Magalhães e Arthur Lira

Por que apenas o Nordeste e o Norte têm herdeiros de clãs políticos locais na política nacional e os outros estados não?

Ao traçar um perfil de Arthur Lira no O Globo, a jornalista Vera Magalhães salpica nas tintas sobre Lira: “está na elite da política desde que ingressou nela, como herdeiro de um típico clã político do Nordeste”.

Um observador atento verá que esta frase costura pontas do texto. Pontas carregadas de simbolismos, trapos surrados em linguagem prafrentex. Quem não lembra da República de Alagoas, de Fernando Collor? Ou Arnon de Mello, tratado como cangaceiro e sacando a arma para matar Silvestre Péricles no Senado, lá pelos anos 60? Dois alagoanos, por acaso…

Também por acaso, uma parte da imprensa nacional ainda carrega uma mistura de preconceito e desinformação sobre a história política brasileira. Na TV Globo, as afiliadas são tratadas como locais onde nem falam nem entendem sobre política. Apenas jornalistas de Brasília manjam da ciência de Maquiavel. Uma visão ultrapassada mas que a própria imprensa com viés teoricamente progressista como o Brasil 247 ou a Revista Fórum mantém como herança maldita da “velha imprensa”.

Quando colegas da imprensa nacional ou amigos do Sul falam da política alagoana ou nordestina como um fenômeno que parece não ser brasileiro, procuro lembrar que Paulo Maluf nunca foi nordestino. Nem Esperidião Amin. Ambos chefes de clãs com seus herdeiros na política nacional.

Eu poderia dar uma lista enorme de nomes mas cito Gilberto Freyre quando ele associa a tradição do patriarcado brasileiro com a política portuguesa e a construção de um país no chão da casa grande, onde o senhor e seus descendentes eram a lei.

“Ah mas a política no Nordeste se resolve na bala”. E no Rio, com as milícias? Quantos prefeitos assassinados?

“Mas no Nordeste há compra de votos”. Em São Paulo não existe?

“Mas aqui no Sul a política tem outro nível”. Qual? O de Caroline de Toni?

É preciso que jornalistas ou analistas da política nacional possam também olhar para o quintal de casa. Aliás Noam Chomsky é genial quando diz que raramente viu no mundo uma elite com tanto desprezo pelos pobres como a brasileira.

Note: não é a elite de uma região mais pobre ou rica. Mas A elite. Quem manda e tem dinheiro no Brasil.

Ou seja: todos os clãs, em todos os estados e também São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul…

Lógico que existem discretos movimentos separatistas no Brasil. Movidos mais pela alienação que pela dura realidade. Mas que essa bobagem não acompanhe os que usam a palavra para dizer. E possamos falar, sem medo de errar, que as bases do Brasil estão fincadas nesse familismo que transforma a coisa pública em uso particular. Em todos os lugares, como a realidade nos mostra.

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