Renato Ferraz – Correio Braziliense
Os Estados Unidos voltam à cena global por algo que, há décadas, seria inimaginável: as favelas, ou as teent cities. Sim, a maior potência política e econômica do último século tem, e se assusta com o fato, miséria exagerada — e agora mais exposta pelo frio intenso no Hemisfério Norte e pelo momento eleitoral. Mais de 50 cidades abrigam essa representação da desigualdade social a que estamos tão acostumados. Nas teent cities — uma, a Pinella Hope, localizada no mesmo estado da riquíssima Disney World — vivem as pessoas efetivamente miseráveis. Não estão nela, por exemplo, nenhum dos 47 milhões anunciados no final do ano passado como pobres, mas que ganham mais de US$ 1 mil por mês.
No entanto, algo mais chama a atenção: o aproveitamento eleitoral-ideológico da situação de crise que o próprio sistema norte-americano, elitista e insano, criou. Claro que em todos os lugares, do Paquistão à Suécia, a oposição torce — e muitas vezes age — para o governo de plantão se dar mal. Faz parte do joguinho democrático embora seja imoral. Mas o que os republicanos e a turma do Tea Party fazem parece ultrapassar o mero proselitismo eleitoral. Ora, os ultradireitistas puseram a cara de fora em 2009, a partir de coisas concretas, como a reforma no sistema de saúde, ou o pacote de ajuda ao sistema financeiro 2008. Mas a estupidez de reduzir a carga de impostos dos ricos é obra deles, suntentáculos de uma elite que apoia invasões de território estrangeiro, desrespeitando soberanias à caça de petróleo e mantém a covarde indústria de armamento. Ou que endividou o país, deixando-o vulnerável.
Exigir altruísmo de político é de uma inocência atroz, mas está na hora de buscar o reforço, por exemplo, dos programas sociais que salvam jovens pobres em Nova York. De copiar Minesotta, que reavalia as medidas adotadas contra a pobreza. Ou os estados, por sua vez, que estabeleceram programas de incentivo para empresas que voltarem ao lugar de origem, gerando mais emprego.
Não é possível, porém, deixar florescer nessa lama, como uma Lótus, sentimentos repulsivos — como o antiamericanismo, a xenofobia, a antipatia, a rejeição. A Europa está dando o recado: humilhados e curvados, os gregos estão queimando bandeiras alemães quase todos os dias. Esse é mau sinal, péssimo sinal.






