Na proximidade dos 50 anos posso afirmar que sobrevivi!
Foram inúmeras as barreiras erguidas, e agora posso compreender a razão de muitas delas terem sido postas, como investimento de contenção da minha própria energia de ser: ser mulher!
Desde o gosto infantil de sentar na janela de casa à primeira afirmação de que gostaria de possuir uma bicicleta, os “não pode” por ter nascido mulher foram sendo aproximados da minha formação; de maneira rude e inquestionável.
Claro que sentei na janela inúmeras vezes, e aprendi a pedalar com bicicletas de aluguel, assim como pintar os olhos, os cabelos e usar roupas curtas foram sendo postos em minha rotina, acostumando os olhares ao que eu queria ser, pois ainda não sabia que era preciso “ser”.
Desta base chego à militância política, com o fulgor dos 17 anos e sem medo de ser feliz na terra de Fernando Collor!
Quanta depreciação, isolamento, estranhamentos eu conheci no limiar da vida!
Declaradamente sem juízo, tinha a tendência de não obedecer a quem “podia”. Aprendi a burlar a astúcia de quem “mandava” e por pouco não perdi a paz. Fato valoroso advindo destes confrontos não-ditos foi o hábito de desapegar da normalidade.
Como mulher adulta, profissional afinada com os valores da liberdade, conheci de muito perto a força enfermiça de depreciação em doses cotidianas de crueldade. Instrumento utilizado inclusive por outras mulheres, que não “concordavam” com o ritmo da minha vida.
O período do mestrado foi rico de revelações neste sentido. Punições vieram de diferentes lados, principalmente no intuito de encurralar: ou estuda ou trabalha!
Comentários comezinhos e mesquinhos, que podem ser compreendidos como sinais de alerta: “é doida”, “maluca”, “doidinha”, “pirada”. Pois carregam consigo o peso histórico das perversas contenções aplicadas às mulheres autônomas em pensamentos e habilidades de sobrevivência.
O hospício foi um pelourinho branco.
Muitas mulheres inteligentes e fora dos padrões foram confinadas pelas próprias famílias, que se envergonhavam de tê-las como membro.
Desqualificar uma mulher que lidera, foi e ainda é algo fetichista. Nós mulheres precisamos conhecer estes meandros de dominação, para proteger nossas histórias, assim como alertar nossas filhas e netas.
Chegando à maturidade, reflito com a paz de quem já passou por muitas batalhas, e oriento as mulheres do entorno a não acreditarem naqueles que lhes façam sentir inferiores, desastradas, incapazes, lunáticas.
Pois se existe um consolo nesta vida de poucas férias, é saber que nas estações as paisagens podem mudar, devem mudar, vão mudar!
Reagir é cuidar de si. Cuidemos também das outras que estejam próximas em momentos de solidariedade possível. Aprendamos também a descansar, pois o maior amor das nossas vidas ainda somos nós mesmas, e toda essa capacidade de amar aos outros sempre escorre dessa fonte interna, onde Deus é Deusa, em cada uma de nós.




