Samir Oliveira
Enquanto o Rio de Janeiro ferve e parte do mundo volta seus olhos para os carros alegóricos, os enredos e a suntuosidade dos desfiles brasileiros, outra parte faz a sua própria festa. Na América do Sul, carnaval não é sinônimo de samba. É sinônimo de resgate histórico, de performances teatrais e de celebração sem necessariamente haver competição.
A única coisa que as festas na Bolívia, no Uruguai e na Colômbia têm em comum com a brasileira é a data e o nome: carnaval. De resto, cada uma traz um espetáculo próprio de danças, ritmos, trajes, influências e costumes.
As murgas uruguaias no maior carnaval do mundo
No uruguai, o teatro é o grande artista daquele que é considerado o maior carnaval do mundo, com duração de 40 dias, preenchendo os meses de janeiro, fevereiro e março. A festa começa no último sábado de janeiro, com um grande desfile pela principal artéria da capital Montevidéu, a avenia 18 de Julho.
Em paralelo, ocorrem também as llamadas, procissões com carregada influência das culturas africanas que, assim como no Brasil, desembarcaram no Uruguai pela força da escravidão. Os séculos de sangue deixaram uma herança cultural que permanece viva e celebrada até hoje no país platino: o candombe. Ritmo à base de tambores e percussão, o candombe anima as llamadas que percorrem as ruelas próximas ao mar da capital uruguaia.
Além dos desfiles, diversos palcos – os chamados tablados – são montados nos bairros de Montevidéu e em cidades do interior para que aconteçam as intervenções artísticas, caracterizadas principalmente pelas murgas. São grupos de 15 a 20 pessoas que apresentam uma mistura de espetáculo teatral e musical, geralmente com boas pitadas de humor e crítica política e social.
As apresentações, tal qual no Rio de Janeiro, são uma competição. Um juri avalia vários aspectos de cada performance e escolhe um grupo vencedor, que é coroado no Teatro de Verãoo Ramón Collazo, arena ao ar livre, no melhor estilo do saudoso Auditório Araújo Viana de Porto Alegre, antes de ele se tornar coberto e, atualmente, sem uso.
O resgate histórico e a influência relligiosa no carnaval boliviano
O carnaval na Bolívia é a tradução da própria história do país, curtida no sangue das nações indígenas desmanteladas pelo reino espanhol. Em Oruro, cidade do altiplano boliviano, as celebrações relembram o passado sob um olhar caleidoscópico que mescla a trajetória dos habitantes originários com as influências impostas pelos colonizadores.
A festa pode não ter a opulência e a estrutura do desfile do Rio de Janeiro, mas impressiona pelos números e pelas perfomances. São mais de 28 mil dançarinos que se engajam em apresentações de 18 ritmos típicos, cada um representando uma história narrada pelas roupas, pelas letras musicais e pelas encenações artísticas.
A mais tradicional e que abre o cortejo é a diablada. A adoração aos deuses nativos e a imposição da religiosidade européia ficam bastante claras nesse espetáculo, que simboliza a batalha entre o Arcanjo Miguel e as forças demoníacas.
A dança representa várias etapas da guerra. No primeiro confronto, os demônios vencem a legião celestial e começam a exterminar o cristianismo do planeta. Mas em seguida são derrotados pelos soldados divinos, que os obrigam a confessar os sete pecados capitais.
Além da diablada, o ritmo inca remete ao descobrimento, à conquista e à eliminação da poderosa nação indígena que habitava a região antes da chegada dos europeus. A apresentação também se divide em diversos momentos, que começa com o primeiro contato entre os espanhóis e os nativos, se desdobra na guerra – com a presença de personagens como o conquistador Francisco Pizarro, responsável pelo extermínio dos incas – e, por fim, termina com a morte de Atahuallpa, o último comandante do império inca.
O contato com a natureza também tem seu lugar no carnaval boliviano. A dança Tinku é um tributo à pachamama – a mãe terra – e simboliza um combate entre etnias nativas que derramam seu sangue em tributo ao plantio e à colheita. Tinku, na linguagem dos quéchua, significa união.
Colômbia: carnaval sob o ritmo do Caribe
O carnaval de Barranquilla, na Colômbia, talvez seja o mais parecido com o do Rio de Janeiro. Possui um desfile de alegorias, um rei momo e uma rainha, mas se diferencia pelos ritmos, pelas roupas, pela tradição secular – estima-se que sua origem remonte ao final do século XIX – e pelo caldeirão de influências absorvidas pela região do Caribe, onde se localiza a costeira cidade colombiana.
A festa inicia neste sábado (18) com um desfile comandado pelos dois soberanos e chuva de flores. É a chamada Batalla de Flores, onde, além das danças e das fantasias, o público recebe flores da rainha e do rei momo, numa celebração que dura cerca de seis horas. O nome do desfile tem origem na Guerra dos Mil Dias, conflito travado entre 1899 e 1902 que resultou na separação do Panamá – até então, um território colombiano. Para celebrar o final da guerra, a população realizava a batalha das flores.
As celebrações continuam até terça-feira e tomam conta de toda a cidade caribenha. Assim como no Brasil, todas as atividades param e as pessoas retomam suas atividades na quarta-feira. No domingo ocorre um desfile folclórico, seguido por diversas apresentações de orquestras na segunda-feira e, por fim, o evento é encerrado com um velório.
A figura de Joselito Carnaval simboliza um folião que rescussita todos os anos para participar da celebração, mas morre de cansaço após os quatro dias ininterruptos de festa. No último dia de carnaval, ocorrem enterros de Joselito em vários bairros de Barranquilla.
Musicalmente, o carnaval de Barranquilla é tão diverso quanto o de Oruro, na Bolívia. Mas destaca-se, principalmente, a cumbia, ritmo característico da Colômbia trazido pelos escravos.
