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Caminhos do voto em Alagoas vão bem além dos poderes de Renan e Lira

As eleições alagoanas mostraram que Renan Calheiros e Arthur Lira são lideranças inquestionáveis.

Mas, apenas isso não explica o contexto do voto local.

Análise do professor de Economia da Ufal Cícero Péricles acrescenta o dinheiro das emendas e programas federais, fundações e institutos ligados a parlamentares e a presença das bancadas federal e estadual.

Ou seja: existe um paralelo entre o desempenho dos governos municipais (saúde, educação, assistência social, segurança, infraestrutura), apoio do Governo estadual e a influência do dinheiro.

100% dos prefeitos foram reeleitos diretamente ou garantiram a permanência no poder através de aliados. Foi o caso de Júlio Cezar (MDB), em Palmeira dos Índios. Ele não poderia disputar novo pleito, mas conseguiu emplacar Tia Júlia, secretária municipal de Educação. A candidata do MDB foi eleita com 57,43% dos votos.

Carlos Gonçalves (PP) mudou o sobrenome para se identificar com Gilberto Gonçalves, também do PP, seu padrinho político em Rio Largo. Foi eleito com 62,99% e um terceiro mandato (indireto) a GG, um dos principais aliados de Arthur Lira.

Pano de fundo nestas vitórias: as transferências de recursos federais subiram, comparando 2020 e 2024: de R$ 10,2 bilhões para R$ 14,3 bilhões. Nas emendas individuais e coletivas, foram R$ 83,7 milhões (2021) para R$ 81,9 milhões apenas em 2024. Ano passado, alcançou a cifra recorde de R$ 112,6 milhões.

Em Palmeira dos Índios, as emendas saltaram de R$ 3,4 milhões para R$ 14,5 milhões ano passado. Em Penedo, onde Ronaldo Lopes (MDB) venceu com 71,33% dos votos, as emendas em 2021 somavam R$ 2,4 milhões; alcançaram R$ 9,9 milhões em 2022 e ano passado, R$ 5,4 milhões.

O dinheiro federal é quem irriga a maior parte dos lares alagoanos. Dos 77.704 domicílios existentes em Arapiraca, 49.151 estão incluídos na Previdência Social; 29.665 no Programa Bolsa Família; 8.900 no Vale Gás e 4.553 do Cria, iniciativa do governo estadual.

Em Maceió, considerada até pouco tempo a capital nordestina mais conservadora e única a dar mais votos a Bolsonaro que Lula nas eleições de 2022, estão registrados 335.771 domicílios. 177.192 incluídos na Previdência; 108.756 no Bolsa Família; 15.588 no Vale Gás e; 21.827 atendidos pelo Cria.

Toda essa rede de votos é costurada também por obras maiores e ampliação de políticas sociais e de desenvolvimento na localidade, levadas adiante pelo governo estadual; o papel das alianças locais e da chapa apresentada, garantidas por um guarda chuva de partidos e/ou lideranças exclusivas; influência política nacional (a oposição Lula e Bolsonaro) e detalhes menores, porém não menos importantes: a presença das igrejas evangélicas/católica (20% do eleitorado), o papel da estrutura de campanha (pesquisas, propaganda, assessorias, cabos eleitorais) e das mídias sociais espalhadas nos três milhões de celulares cadastrados no Estado.

Fundações e institutos vinculados a parlamentares são “um dos eficientes instrumentos para chegar ao voto popular”, diz Cícero Péricles; os movimentos sociais (sindicatos, associações feministas, negras), dando vazão às demandas das comunidades.

Nenhum indígena, negro ou LGTB foi eleito prefeito em Alagoas. O MST elegeu um vereador. As mulheres representam 53% do eleitorado, mas apenas 24 foram eleitas para comandar cidades. E dos 1090 vereadores, 187% são do sexo feminino (17%).

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