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Brasil não é Bolsonaro, ainda que ele queira banalizar o mal

Sem angústia, a mulher calculava, com a outra, enquanto parava para descansar carregando um carrinho de mão cheio de mangas, quanto entregaria para a igreja evangélica – destas da fé cega e sem raciocínio- do seu dízimo por estes dias: R$ 900,00.

Provavelmente venderia um bem por R$ 9 mil e 10% do valor iriam para a igreja.

Pelas redes sociais, uma dama de sobrenome conhecido entre famílias tradicionais do interior respirava aliviada: tinha memória pelo que Lula havia feito ao país; que a mamata acabou; que milhões foram desviados e o Sérgio Moro será eleito em 2022.

Eu me lembrei daquele sobrenome: os homens da família frequentam as páginas policiais há anos, exatamente por desviarem milhões dos cofres de uma Prefeitura.

Mas o mal só é nocivo quando está na casa do outro. Na nossa casa, ele é banalizado, faz parte da decoração.

Num grupo de Whatsapp, onde existem uns poucos fanáticos seguidores de Bolsonaro, a fofoca de hoje é que a “farra” acabou. A ministra Damares cancelou pagamentos a 2 mil anistiados, entre eles Chico Buarque, Lula, Gilberto Gil e por aí vai.

Outro diz que o “satã” Lula fez a “maior brutalidade com índios”. Outra ainda não começou a espalhar mentiras: por enquanto, deseja bom dia com uma imagem de Nossa Senhora.

Há quem se sinta aliviado com Jair Bolsonaro no poder por ele representar um vingador. Ele revelou o quanto existem pessoas com raiva. Gente cheia de ódio. Não uma inveja, uma coisa localizada, mas uma carga histórica, um ranço guardado, situações mal resolvidas.

E tudo isso fosse se acumulando, escombro sobre escombro, como os imperadores que conquistavam civilizações pilhando os povos e erguendo novos templos para a sua fé, em cima de lugares sagrados de outros povos, gerando ira dos espíritos antigos.

Chegamos ao ponto de transformar quem escreve sobre política e sociedade em criminoso, em “militante partidário” e, como tal, deve ser submetido às hordas de justiceiros em nome de Jesus.

A miséria avança, os defensores da moral estão violentíssimos- mais do que nunca- protestar só sob a mira das armas (o mal controlado), há líderes religiosos justificando o crime em nome da paz pregada por Jesus.

E a banalidade nos faz ter medo de falar. Só se for para elogiar o Brasil que avança. Mas qual avanço? O dos recordes do mercado na Bolsa de Valores? O do preço da carne de sol a R$ 50, vistosa e amontoada no balcão, enquanto alimentos processados, esbanjando sódio, estão um pouco mais baratos, as prateleiras menos cheias e as pessoas precisam comer, caladas, enquanto veem pelas redes sociais um país sendo desmontado aos olhos deles e do mundo?

Estamos ainda incapazes de lidar com esse mal. O que é bom é que o Brasil não é Bolsonaro. Ruim é achar normal uma doença social. Precisamos crer nas nossas forças.

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