Peões pensantes no tabuleiro da vida

Na sociedade que construímos, o cotidiano pode ser comparado a um moinho. Crescemos sob o esplendor fantástico do mundo midiático, nos chamando para uma…

Na sociedade que construímos, o cotidiano pode ser comparado a um moinho. Crescemos sob o esplendor fantástico do mundo midiático, nos chamando para uma ilusão, uma clausura. Para que ganhemos a vida e procuremos alcançar patamares maiores precisamos da mediação do consumo, sendo este o que movimenta o dia a dia e a percepção das nossas necessidades. A crescente demanda de energia humana no mundo do trabalho obsidia sujeitos, torna-os dóceis e ao mesmo tempo entediados. O tempo é uma dimensão sorrateira da vida, pois temos nossa percepção enganada com a sensação de que tudo passou muito rápido, fazendo mil coisas sem pausas.

O ponto gritante da angústia de hoje é o controle. Em meio a todos os aspectos que nos fazem querer ser multifuncionais e produtivos, ainda temos que nos comprometer com a alimentação saudável, cuidar da saúde, praticar um esporte e verificar se estamos a cima do peso ideal. O contemporâneo nos inunda de expectativas, nunca se imaginou tanto, ao mesmo tempo que nunca fomos tão pouco criativos. Sob moldes, procuramos encaixar nossos desejos às dinâmicas das imagens, difundidas e aclamadas pelas virtualidades onipresentes.

Não procuramos, nós mesmos, construir relações entre diferentes objetos, mas, ao contrário, são os objetos, o tecnológico, o instrumento que mediam nossas relações. O desejo, como categoria humana que retrata aquilo que temos de mais íntimo, é direcionado por esquemas fabricados e propagados por insígnias e marcas. Não queremos apenas roupas, queremos roupas da marca “tal”, na loja “tal” e no shopping “tal”.

Aspectos da linguagem também são mediados pelos aparatos tecnológicos, afinal de contas só entendemos se alguém está feliz em dar um “oi” para nós se esse “oi” vier acompanhado de emojis, rostinhos sorridentes, mesmo quando as vezes estamos meio sonolentos ou enjoados pelo ritmo repetitivo de subir “linhas do tempo” com o polegar.

Oque nos sobra além de expectativas? Fantasiamos com o futuro, damos impressões e texturas a todas as fantasias que queremos viver no futuro, enquanto no presente não nos preocupamos de nos servir da abundância de sensações que a vida nos traz a todo momento. Viver picos de sentimentos e emoções é o que nos é relegado.

Ou estamos muito mal, ou muito bem, ou felizes ou muito infelizes, ou satisfeitos ou ostensivamente insatisfeitos. A oscilação dos humores pode ser entendida, talvez, como uma tentativa de sair do constante estado de submissão a rotina. Do trabalho à casa, da série de televisão da moda à roupa da moda são todos vislumbrados como padrões, como produção comum de subjetividade. A individualidade se transformou em um aspecto escorregadio na construção de si.

O que nos adoece se não é o terror do inevitável? Do aderir compulsoriamente a uma rotina, a um desejo e uma expectativa?

Nada nos dá certeza que cumpriremos a meta de vida que traçamos em nossos sonhos, o caminho até lá, dentro das possibilidades que temos, é a aventura que podemos ter apesar do cotidiano intenso de movimentação do corpo. O corpo que não se movimenta por conta própria, mas é movimentado pelos carros e pelos ônibus.

Quando somos interpelados pela responsabilidade da vida comum, das nuances do ambiente político e social, das questões e emoções que a experiência da vida social carrega, paramos e nos sobressaltamos com o medo.

De repente a aniquilação do eu parece iminente, o outro se torna inimigo e tudo o que queremos é direcionar todo ódio que temos da existência em alguém. Quem paga pelas nossas frustrações? Unimo-nos numa vontade de poder, no calor da emoção compartilhada e difundida numa massa, num urro quase primitivo com o mínimo possível de questionamento. O bem e o mal, o bonito e feio, cindidos e jogados para partes da personalidade, difusas, dispersas. O espaço do meio não é conquistado sem batalha.

De fato, não podemos nos omitir diante desse cenário. A própria subjetividade se envolve, se contorce. Se desenvolvemos o mundo que queremos por meio das relações sociais, das representações que compartilhamos, da capacidade dialógica que reitera a democracia, isto significa que estamos em conjunto, seja esse nosso karma ou não.

É verdade que relacionar-se, nesse contexto, contém algumas impossibilidades, contudo, devemos lembrar que em outros tempos também houve outras impossibilidades, outros rostos da intolerância e que o presente e o agora se caracteriza pelo contato, pelo toque, não necessariamente físico, mas um toque discursivo, uma produção de sentidos pelo olho no olho, pelo reconhecimento da angústia comum (do eu e do outro) sobre a existência.

A oposição necessária as ideações do horror, ao pensamento opressor e antidemocrático pode apresentar-se como uma posição física e discursiva. A totalidade precisa estar envolvida nos processos de contato. Aquele outro, frustrado, raivoso e perdido necessita da presença do oposto, do oposto em corpo e do oposto em voz. A materialidade do corpo, quando acompanhada de uma fala que neutraliza ódio, tem o potencial de criar um momento genuíno de readequação, reorganização da percepção e das distorções.

Lutar deve ser a premissa que orienta a postura do eu neste contexto, mesmo que por vezes a luta se expresse como silêncio, com a atenção e com o auto-cuidado.

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