Blog do Odilon: Uma corda, entre o homem e o macaco

Quando era criança, imaginava que os maiores problemas em seu mundo eram os poucos amigos- quase nenhum- a personalidade acanhada e de pouca conversa, um temperamento que gerava aquele estado de coisas de “para sempre serei uma vítima”.

Passava as tardes da semana ou os solitários domingos- sim, recusava os convites de ir à praia- com o olhar no papel chamex vazio, na exigente máquina de escrever. Rendeu-lhe uma dor na coluna, repetindo o gesto- com alguns escritos indo ao lixo.

Ao caminhar os olhos em uma das poucas saídas à rua, viu, no alfarrábio, uma edição de “Assim Falava Zarastustra”.

“O homem é uma corda esticada entre o animal e o super-homem: uma corda por cima do abismo; perigosa travessia. Perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso parar e tremer. O que é de grande valor no homem é o fato de ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento.”, dizia o autor, Nietzsche.

Como imaginar que Deus havia morrido por amor aos homens e as catedrais espalhadas no mundo eram a representação daquele funeral? E como imaginar que, ao arrancar Deus dos desejos mais íntimos, a corda do homem esticaria a tal ponto que, mesmo perigosa, a travessia seria mais instigante?

A personalidade do louco genial fascinava. Afinal, lia em algum lugar que Nietzsche tinha dores insuportáveis de coluna- resultado daquela vontade de poder literária- a angústia de escrever, a solidão de um tempo inteiro contra si e as caminhadas na criação daquela filosofia tão nova.

Dava para imaginar, naquela cabeça juvenil, que Nietzsche conheceu alguma daquelas praias desertas na Barra de São Miguel, atravessava a pé a cana de açúcar e, ao ver do alto o mar rebetando-se na areia solitária lá embaixo, a 100 metros de altura, gritava que o homem era uma corda, esticada entre o macaco e Deus.

E repetia a frase uma, duas, várias vezes.

A água dissolvia-lhe a voz, as palavras eram recicladas em sal e prosa. E Nietzsche sentava no chão, olhando o continuar do dia, as teimosas nuvens no céu em passagem lenta, as ondas ferozes e o vento insistindo em vencer tudo.

“Fascinante poder da natureza…”

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