Um país diferente aos seus próprios olhos acorda para seguir a vida. A sensação de um enorme sacolejo em cada lado, do que agora se chama uma nação dividida em dois segmentos.
Metade do país desejou resolver seus problemas sociais na medida curta da truculência; endossou a força bruta e autoridade militarizada, e ficou decepcionada por não ganhar no primeiro turno.
Outra metade lutou para que não houvesse vitória do programa autoritário, desvinculado do bem estar geral, das garantias e direitos civis e sociais. Foi ameaçado e pressionado, mas se fez decisivo para que haja o segundo turno.
No interior dos prédios onde estavam as seções eleitorais, dois tipos de olhares se manifestavam, porque a dualidade é a marca desse momento:
- Olhares desafiadores, de quem sabia ter permissão para vestir a farda verde-amarela, com a exacerbação do nacionalismo que os contextos fascistas criam.
- Olhares precavidos e silenciosos, daqueles que se disfarçavam com vestes comuns quando na verdade desejavam estar com as cores partidárias dos candidatos escolhidos, mas temiam represálias.
Quem já assistiu filmes retratando contextos políticos nazi-fascistas sabe do que estou falando, e ao longe consegue até imaginar a atmosfera de desigualdade existente neste território, embora ainda rasteje a democracia.
Uma parcela de brasileiros fez propriedade de si a bandeira e as cores da pátria. Divulga opções simplistas para solucionar coisas complexas, eliminando o contraditório, seja ele gente ou ideia.
Esse segmento assustou o país divulgando vídeos nos quais a arma era usada para teclar o número do candidato que faz da morte seu mais forte discurso de palanque.
Pais e mães estão temendo o amanhã, por terem filhos e filhas encaixados nos padrões-alvos das propostas de extermínio.
Já há medo nos lares do Brasil.
O fascismo vestiu a elite arcaica que implicou com as políticas afirmativas de cotas, e empoderamento das minorias – como uma luva. E foi esse modelo de eleitor que tocou o terror e esperou vencer de primeira.
Mas houve quem não se visse representado por esse caminho de ação política, e no silêncio do olhar votou pela democracia, consciente do risco de ser este pleito o último, como prelúdio de uma nova ditadura regida pelo militarismo que em dose avançada se consolidou nas Assembleias Legislativas e Câmara Federal, pelos caminhos legítimos do voto.
Um povo que estranhamente pediu o retorno de militares ao cenário político, e foi prontamente atendido através de candidaturas, em grande parte acatadas e exitosas.
Já estamos no limiar de um governo militarizado. Eleito pelo voto e pela mentalidade fascista.
Mas ainda falta a cereja do bolo, que está sendo violentamente perseguida pela família Bolsonaro, e apenas com muita coalizão de forças sociais não será deles, pois a metade do país perdeu a noção de coletividade e apostou no abismo.
Qual será a sua aposta, para o futuro da nossa história?





