BBC Brasil
A capital do Bahrein, Manama, vive momentos de tensão neste sábado, em meio à expectativa de mais confrontos por conta do GP de Fórmula 1, a ser realizado no domingo.
Veículos blindados e carros policiais patrulhavam a cidade, para conter possíveis manifestações como as de sexta-feira, que reuniram dezenas de milhares de pessoas, em sua maioria xiitas, em atos contra o governo.
Segundo a agência Reuters, já há relatos de protestos e enfrentamentos em diversas regiões do país neste sábado.
Os manifestantes, integrantes da maioria xiita do país, dizem sentir-se marginalizados e criticam a volta da corrida de Fórmula 1 ao país – o GP fora cancelado no ano passado, em meio aos distúrbios da Primavera Árabe. A alegação dos críticos é de que o evento legitimiza governo de maioria sunita e a repressão contra a população.
Políticos e defensores dos direitos humanos vinham pedindo um novo cancelamento da corrida.
Ao mesmo tempo, enquanto os pilotos da F1 se ocupavam das provas qualificatórias, ativistas da oposição disseram que o corpo de um manifestante foi encontrado nos arredores de Manama. O homem, identificado como Salas Abbas, teria participado dos protestos que se estenderam pela noite sexta-feira e madrugada de sábado.
Pelo Twitter, o Ministério do Interior do país confirmou a morte e disse que o caso será investigado.
Questão moral
A FIA, órgão que controla a Fórmula 1, disse que só deu a luz verde para a realização do GP de Bahrein depois que o governo afirmou que a segurança estava sob controle.
O correspondente da BBC no Oriente Médio, Rupert Wingfield-Hayes, explica que membros da FIA se perguntaram por dias se era seguro voltar a realizar o GP bareinita. Mas ele opina que essa é a pergunta errada – dificilmente participantes da corrida automobilística estariam em risco, de qualquer forma.
A questão maior é de âmbito moral, diz ele.
“A pergunta certa é: Será que a F1 deveria voltar ao Bahrein? Sem dúvida muitos bareinitas estão animados com o retorno da prova, após o cancelamento no ano passado, e esta atrairá muitos turistas e dinheiro da Arábia Saudita, de Dubai e do Kuait. O mais feliz de todos será o rei Hamad Al Khalifa e seu clã sunita, que governa a ilha há mais de 200 anos. Quem não ficará feliz é a maioria xiita.”
Para muitos xiitas, explica o correspondente, a realização do GP dá um selo simbólico de aprovação internacional ao regime bareinita, depois de um ano de semiostracismo.
“Não queremos a Fórmula 1”, disse à BBC um manifestante, em condição de anonimato. “Eles ignoram nosso sofrimento durante esse show, mostrando que as coisas estão pacíficas, que as pessoas estão felizes. Mas a realidade não é assim.”
Levantes
O Bahrein é um dos países do Oriente Médio a registrar levantes relacionados à Primavera Árabe.
Ao longo dos últimos anos, o país vinha implementado mais garantias de liberdade de expressão, e monitores apontavam melhoras na situação de direitos humanos. Porém, em meio aos protestos do mundo árabe em 2011, o governo bareinita pediu ajuda a militares sauditas para sufocar as manifestações, que pediam mais benefícios à maioria xiita.
O GP de Bahrein do ano passado acabou cancelado depois da morte de 35 pessoas, em fevereiro e março, durante repressões às manifestações populares.
Quanto ao GP deste ano, o príncipe bareinita, Salman bin Hamad Al Khalifa disse que um eventual cancelamento da corrida automobilística “apenas daria poder a extremistas”. Ele defendeu que a prova esportiva “constrói pontes entre comunidades”.
Jean Todt, presidente da FIA, também defendeu a realização da prova, alegando que “não foi encontrada nenhuma (razão) para impedir a corrida”.
“Em termos racionais, decidimos que não havia motivos para mudarmos de ideia”, afirmou.








