As instituições mundiais no caminho do fracasso?

O que vem bem a propósito do socorro que a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) propõem à combalida Grécia - extraordinário, sim, mas meio bizarro e estranho o bastante para um trocadilhista dizer que se trata de presente de grego

Marco Antonio Rocha -Estadão

A palavra paradoxo vem do grego: pará = contra;  dóksa = opinião. E mestre Houaiss ensina que, além de indicar uma  opinião contrária à comum, pode denotar algo “estranho, bizarro,  extraordinário”.

O que vem bem a propósito do socorro que a União  Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) propõem à  combalida Grécia – extraordinário, sim, mas meio bizarro e estranho o  bastante para um trocadilhista dizer que se trata de presente de grego.  No caso, para grego, pois o paradoxo que transparece no pacote é que ele  anula sua finalidade. Seu objetivo principal, segundo declarações dos  socorristas, é que a economia da Grécia volte a crescer a fim de que ela  possa pagar o auxílio recebido.

Todavia, como o Produto Interno  Bruto (PIB) grego pode voltar a crescer o bastante para que o país pague  o socorro recebido, uma vez que o peso das condições impostas para  receber o auxílio arrocha o PIB da Grécia? Com o salário mínimo, as  aposentadorias, as despesas do governo, o funcionalismo público e as  rendas internas do país substancialmente cortados, de onde virá consumo  suficiente para puxar o trem da economia?

A suposição, ao que  parece, é que o governo grego, livre de boa parte das dívidas e das  despesas com funcionários, aposentados, etc., vai dispor de mais  recursos para investir, e seus investimentos levantarão a economia. Mas  vai investir em quê? Na produção, em transportes, fábricas, portos,  ferrovias, aeroportos, armazéns, ou o que seja? Mas, então, o governo  estará aumentando seus gastos, injetando dinheiro na economia e  favorecendo a inflação – justamente o que se temia que acontecesse sem o  socorro.

O governo grego teria, pois, de investir em coisas que  não inflacionassem os meios de pagamento internos e que trouxessem  dinheiro do exterior. Por exemplo, uma astronômica campanha publicitária  mundo afora para trazer turistas endinheirados que gastassem divisas  dentro da Grécia. Mas a receita de turismo da Grécia, que já deve ser  enorme, não bastou para equilibrar suas finanças, e dificilmente pode  ser aumentada, seja qual for o gasto em publicidade no exterior.

Em  suma: a Grécia recebe uma polpuda mesada para acalmar seus credores e  um perdão de dívidas, que cairão de mais ou menos 160% do PIB para algo  como 120% do PIB. Ou seja, a dívida continuará enorme. E, como o PIB vai  diminuir, em razão das medidas contracionistas previstas no acordo, é  possível que o remanescente da dívida ocupará, em relação ao PIB, o  mesmo porcentual da dívida original.

Alguém pode sugerir um paradoxo grego mais perfeito do que esse?

É  por isso que “o pacote grego não convence” – como dizia o título do  comentário do nosso colega Alberto Tamer, na última quinta-feira.  Porque, além da falta de confiança na firmeza do governo grego em  cumpri-lo, que leva à descrença, o pacote encerra um paradoxo digno dos  de Heráclito, Epicuro, Zenão ou de qualquer outro filósofo grego menos  votado.

Mas essa história contém algo mais grave: a perplexidade sobre o porquê das atuais instituições multinacionais.

A  União Europeia surgiu para promover o progresso, o bem-estar e a  harmonia na Europa, dotá-la de massa crítica capaz de fazer frente não  só ao “desafio americano” – advertido há muitos anos no livro de  Jean-Jacques Servan-Schreiber -, mas aos desafios que se agigantaram  depois: da Rússia, da China, do Japão.

E o que acontece?

A  União Europeia, em vez de solução, vira problema, atravanca o progresso  no mundo e tropeça nas próprias pernas: não consegue que suas regras  sejam respeitadas por seus membros e não atina com uma solução  consequente para as dificuldades de um dos seus menores membros.

O FMI, por sua vez, joga na lateral, sem saber o que fazer e dizer.

Na  área política, a Organização das Nações Unidas (ONU) surgiu para  administrar a paz, tornar o mundo menos perigoso e promover a harmonia  entre os povos.

E o que acontece?

Neste momento, três países  atravancam a estrada da harmonia e do progresso pacífico. Três pins in  the asses – diriam os americanos: Síria, Irã e Israel, com três povos  cuja história se perde na noite dos tempos, e que nada aprenderam com  ela. Agem contrariamente aos melhores propósitos da comunidade  internacional. E ninguém, nem a ONU, nem os grupos paralelos das grandes  potências ocidentais, nem a UE, nem países historicamente pacíficos,  como o Brasil e o Canadá, por exemplo, podem fazer qualquer coisa para  tirar aqueles pins do ass do mundo.

A conclusão é de que o mundo  ainda não foi capaz de criar instituições multinacionais capazes de  exercer com eficácia o papel civilizador que delas se espera.

Então,  de duas uma: ou os atuais líderes mundiais se empenham nisso com  afinco, ou o mundo voltará ao estado de semibarbárie do século 19, em  que a imposição pela força das armas era a regra.

Só que os anões  de jardim que nos lideram hoje em dia – de Angela Merkel a Barack Obama,  com Sarkozy, Putin, Cameron, etc. – só pensam em ficar bem na fita.  Assim, está difícil apostar num futuro melhor.

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