O coronel Luciano Silva assumiu o comando da Polícia Militar em janeiro de 2011, quando Alagoas tinha uma das mais altas taxas de homicídio no país. Naquele ano, foram assassinadas 2.342 pessoas. Um ano depois, assistíamos a implantação do Brasil Mais Seguro, um mega plano de segurança que incluía tecnologia, inteligência e estratégia no combate ao crime. O plano fracassou porque o então governo Teotonio Vilela Filho tinha de assumir, sozinho, responsabilidades da União na área da segurança pública. Nessa época, Luciano não era mais comandante da PM.
O quê um oficial do alto escalão da polícia em Alagoas, crítico sem papas na língua do Governo do capitão da reserva Jair Bolsonaro tem a dizer sobre o decreto, assinado pelo presidente, que flexibiliza a posse de armas no Brasil?
Com a palavra, Luciano Silva:
Como você traduz este decreto de posse de armas aprovado hoje?
Sou totalmente contrário. Para mim, não resolve o problema da segurança pública, pelo contrário, potencializa a ocorrência de mais crimes com o uso de armas de fogo. Usando um frase popular: é um tiro no pé, e só atende à bancada da bala e as empresas fabricantes de armas. Somos o país que, numericamente, mais se matam e onde mais de morrem policiais.
A solução passa por mais investimentos em segurança pública, quer seja tecnologia e nos recursos humanos e ações sociais para a população, com geração de renda e emprego, educação, saúde e cultura. Fora disso, é paliativo ou populismo barato.
Você assumiu o comando da PM alagoana em janeiro de 2011, quando registramos 2.342 assassinatos. Chama a atenção nas ocorrências policiais uma quantidade expressiva de armas de fogo de numeração raspada ou o aluguel delas para matar. Em tese, este decreto tem como controlar a quantidade de armas circulando nas mãos dos brasileiros?
O Estatuto do Desarmamento em vigor é que trata do controle das armas através dos sistemas coordenados pela Polícia Federal e Exército Brasileiro.A arma com numeração raspada ou o aluguel de armas para o crime é um câncer que tem que ser extirpado. Normalmente, são armas de procedência legal que foram roubadas, ou furtadas ou extraviadas e foram para o crime. Tínhamos uma preocupação muita grande com isso, pois, era como enxugar gelo. Você retirava uma arma de circulação e mais na frente ela era apreendida novamente.
E esse decreto pode provocar a oportunidade de mais armas para o crime ou a ocorrência de crimes por motivos emocionais praticados por cidadãos comuns com acesso fácil a armas, principalmente, no trânsito, em casa, em locais de consumo de álcool etc.
Regras muito duras para porte ou posse de arma de fogo não acabam aumentando a quantidade de pessoas armadas, de forma ilegal?
No meu ponto de vista, só deve ter acesso às armas os profissionais encarregados pela segurança pública, defesa nacional e as demais profissões previstas no estatuto do desarmamento e outros casos e pessoas já listados, no citado diploma legal, com a investigação feita pela Polícia Federal e os requisitos previstos e pelo Exército, também nos casos previstos na lei.
Arma na mão de pessoas despreparadas ou que não tenham necessidade de portá-las é um risco, ou um potencial local de busca de arma pelos bandidos.
Portanto, a legislação tem que ser técnica e justa para quem necessita do uso e porte de arma, dentro dos estudos que versam sobre o tema e que sinaliza que mais armas em circulação poderá trazer mais ocorrências de crimes por arma de fogo, em um país que tem esse triste recorde.
Qual a lição que um ex-comandante da PM de Alagoas daria a um cidadão que quer ter uma arma em casa para se defender da ação dos bandidos e proteger a própria família?
Só se estritamente necessária e dentro da legislação em vigor.
Porque, o que poderia ser sinal de paz e tranquilidade, poderá trazer infortúnio e tristeza no âmbito familiar, conforme pode ser atestado por vasta literatura na área.




