Por Patrycia Monteiro
Sabe quando a gente assiste um filme e tem muita vontade de falar dele quando sai da sessão de cinema? Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, provoca essa reação. O enredo propõe uma série de temas que valem boas discussões.
Que temas são esses?
O principal deles diz respeito a ocupação urbana sob a lógica do capital. Os moradores das grandes capitais brasileiras observam hoje que toda expansão territorial urbana é determinada geograficamente pela elite, no ritmo de suas ambições, via de regra expulsando os mais pobres que ocupam determinadas regiões da cidade.
Se fosse ambientado em São Paulo, certamente o filme teria de retratar uma favela misteriosamente incendiada. Mas a narrativa de Aquarius se desenvolve no Recife em torno de uma mulher, moradora de um prédio de classe média, situado na beira-mar da Avenida Boa Viagem, área nobre da capital pernambucana, foco de grande especulação imobiliária nos últimos 30 anos.
A personagem Clara, interpretada por Sonia Braga, é vítima de um processo de perseguição por parte de uma grande construtora porque é a última moradora remanescente do edifício Aquarius.
A permanência dela emperra o início da construção de mais um arranha-céu no local.
Clara sofre uma série agressões sutis (?) para que desista de habitar no apartamento que faz parte da história de sua família. Sua insistência em morar no lugar, apesar da pressão extra dos filhos e dos ex-vizinhos, é um ato de resistência.
A escolha do diretor em abordar esse tema não é aleatória.
Kleber Mendonça Filho é um importante ativista no Movimento Ocupe Estelita que se insurgiu contra um empreendimento elitista chamado Novo Recife que seria erguido no Cais José Estelita, terreno público de 100 mil metros quadrados, com armazéns antigos localizado numa região histórica da capital pernambucana.
O terreno foi privatizado num leilão, com preço subfaturado, adquirido pelo Consórcio Novo Recife, formado pelas construtoras Moura Dubeux, Ara Empreendimentos, GL Empreendimentos e Queiroz Galvão, para se construir 12 torres de cerca de 40 andares de uso estritamente particular.
Outra questão discutida no filme é o desafio de ser mulher forte numa sociedade machista.
O filme dispõe de vários elementos para tocar profundamente o coração do público feminino.
O tempo todo o enredo nos lembra o quanto a mulher sozinha (sem marido) está vulnerável na nossa sociedade.
Todas as ofensivas da empreiteira contra a personagem são de cunho machista. Sonia Braga imprime muita veracidade à personagem de Clara que é uma mulher forte, independente, autossuficiente, que não precisa da aprovação de ninguém.
A mulher forte em si já é a personificação da resistência.
Numa sociedade em que as mulheres chefes-de-família vêm ganhando cada vez mais presença é muito fácil identificar alguém como Clara em nosso convívio.
Aliás, #SomosTodasClaras.
Por isso mesmo, sabemos que as mulheres fortes e independentes pagam um preço bem alto por existir, afinal, ser uma mulher forte chega a ser uma ofensa para certos grupos conservadores.
O terceiro tema relevante no enredo de Aquarius é o do apego, da memória, num contexto social consumista.
A história também discute o caráter descartável que toma conta de todas as coisas numa sociedade capitalista e suas demandas de consumo infinitas e irrestritas.
A personagem, preserva seus vinis, sua radiola, seus livros, seus álbuns com retratos de família em plena era digital. Dos móveis aos objetos, tudo tem valor sentimental no apartamento de Clara.
Seus vazios, sua solidão, são preenchidos com música, com leitura, com o afeto, com a amizade, com as pessoas.
Ela tem um estilo de vida contemplativo e pacato, sem as ansiedades e desesperos típicos da vida contemporânea.
Há ainda a questão da sexualidade feminina empoderada versus a sexualidade masculina dominadora, que não está no primeiro plano, mas que permeia diversas situações da trama.
A sexualidade feminina é um elemento recorrente na narrativa e é retratada com muita sensibilidade.
A cena de sexo que gerou a classificação do filme para 18 anos (depois reclassificada para 16 anos), é extremamente relevante para o enredo porque faz parte do conjunto de agressões perpetradas contra a personagem para que ela desista de viver em seu apartamento.
O enredo traz três tipos de expressão da sexualidade masculina: a do o profissional, que pode ser útil; a do homem que ama e admira as mulheres e se empenha no prazer delas; e há o homem de sexualidade bestial e selvagem que coisifica a mulher e (ou) utiliza o sexo para humilhá-la.
O filme tem uma narrativa rica e um humor sutil.
Homenageia o Recife e retrata muito bem o ambiente de classe média.
Os diálogos são realistas e os atores muito naturais.
É um filme bem arrematado que leva à reflexão.
Se deixarem de fora a polêmica política e Aquarius for indicado ao Oscar, creio que todos os brasileiros poderão torcer por ele com muito orgulho.









