O que parecia ser um ensaio de pragmatismo entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump entrou em rota de colisão. Nos corredores de Brasília e do Itamaraty, o clima é de apreensão: a articulação bolsonarista nos Estados Unidos recuperou fôlego junto ao Departamento de Estado e à Casa Branca, colocando em xeque o diálogo que vinha sendo construído.
O sinal mais claro dessa instabilidade é o adiamento da viagem de Lula a Washington, prevista para março, que agora segue sem data no calendário oficial.
Segundo o que apurou a CNN Brasil, a leitura do governo brasileiro é de que a ala MAGA (Make America Great Again), o núcleo mais ideológico de Trump, voltou a campo para interferir diretamente na sucessão presidencial brasileira.
Dois movimentos recentes são vistos como peças de um tabuleiro eleitoral: a retomada da proposta americana de equiparar facções criminosas brasileiras a organizações terroristas e a vinda estratégica de um conselheiro de alto escalão de Trump ao Brasil.
A visita de Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado e aliado próximo da família Bolsonaro, tornou-se o epicentro de uma crise diplomática.
O Itamaraty classificou a agenda de Beattie como uma “fachada” para um encontro político com Jair Bolsonaro na Papudinha. Inicialmente autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, a visita foi barrada nesta quinta-feira (12) após um alerta contundente do chanceler Mauro Vieira.
Em ofício enviado ao Supremo, Vieira foi direto: a visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-presidente em ano eleitoral configura “indevida ingerência nos assuntos internos”.
O Itamaraty revelou ainda que a solicitação de Beattie omitiu o encontro com Bolsonaro, mencionando apenas eventos de “relações bilaterais”. Vale lembrar que Beattie é um crítico feroz de Moraes, a quem já chamou de “arquiteto da censura” contra a direita brasileira.
Outro ponto de fricção que faz o governo Lula subir o tom é a pressão americana para classificar facções brasileiras como terroristas.
Enquanto o Planalto vê na medida um risco severo à soberania nacional e uma tentativa de “tutela” externa, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) endossa entusiasticamente a proposta.
Para estrategistas do PT, o movimento de Trump não é isolado, mas sim parte de uma ofensiva coordenada para projetar a direita na América Latina, de olho também nas eleições que ocorrem este ano no Peru e na Colômbia.
