Repórter Nordeste

Alianças municipais desvinculam-se da aproximação entre Kassab e Serra

Valor Econômico

A  possibilidade de coligação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab  (PSD), com o PSDB, numa eventual candidatura do ex-governador José Serra  à sua sucessão, não deverá levar a legenda que fundou a uma mudança na  política de alianças para as eleições municipais de outubro. Apesar do  receio de alas pessedistas de que a associação entre Kassab e Serra  marcaria o partido com a pecha de oposicionista, o impacto da  candidatura Serra nos arranjos que estão sendo feitos nas 26 capitais é  praticamente nulo.

A situação é diferente da verificada quando  Kassab abriu negociações com o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da  Silva para in dicar o vice na chapa do ex-ministro da Educação Fernando  Haddad. A iniciativa provocou uma maior inclinação de seções regionais  do PSD em direção ao PT, a despeito do histórico de rivalidades locais,  como publicado pelo Valor em 24 de janeiro.

Com Serra, de acordo  com novo levantamento, o efeito tende a ser residual. E se expressaria  mais como uma retaliação de petistas a uma suposta traição ou desfeita  de Kassab a Lula. É o caso de Porto Alegre.

Na capital gaúcha, o  PSD, liderado pelo deputado federal e ex-goleiro Danrlei, já conversou  com as três principais forças: o PT, cujo candidato é o deputado  estadual Adão Villaverde; o PCdoB, que lançará a deputada federal  Manuela D”Ávila; e o PDT, do prefeito José Fortunati. A decisão ainda  não foi tomada e, segundo o líder da bancada na Câmara, Tarciso Flecha  Negra, o PSD espera uma definição do quadro local até o fim de março.  Mas o vereador afirma que uma aliança do partido com o PSDB em São Paulo  dificultaria um acordo com o PT em Porto Alegre pela reação dos  próprios petistas. Mesmo assim, isso não vincularia a decisão do partido  na cidade.

Em Santa Catarina, a associação entre o PSDB e  integrantes do PSD – uma enorme maioria oriunda do DEM – já é estreita.  Diante desse quadro, o esforço do governador Raimundo Colombo (PSD) tem  sido o de dar ao partido uma feição mais maleável e aproximá-lo dos  petistas, ao estilo de Kassab, seu presidente nacional. As negociações  em São Paulo ainda não interferiram em seus planos, que seguem sendo o  de fazer alianças com legendas distintas, podendo apoiar o PT ou o PSDB,  de acordo com a necessidade da disputa em cada município. Do lado do  PT, a diretriz é a de não apoiar o PSD no Estado, mesmo que em algumas  cidades uma coligação já seja considerada inevitável.

Ao Valor,  Colombo disse que há chances, de fato, de uma aliança PT-PSD ocorrer,  especialmente, em cidades menores. “Nós não somos preconceituosos, mas  cada município tem sua relação de convivência, de identidade. Em alguns  lugares, a coligação é de um jeito, em outra, é de outro. A autonomia  será do diretório municipal”, disse.

Ou seja, uma entrada de Serra  em cena pouco deve alterar o cenário local. Prova disso é que há  conversações com o PT em municípios de pequeno a médio porte, como  Ibirama, Balneário Arroio Silva, Jacinto Machado, Imbituba e Criciúma.  Em Criciúma, o PSD não terá candidato próprio e poderá apoiar a chapa  PT-PMDB. Já em Imbituba, há chances de PT e PSD se unirem para enfrentar  o PSDB.

No entanto, nos três maiores colégios eleitorais do  Estado, Joinville, Florianópolis e Blumenau, a união não deve ocorrer.  De acordo com o presidente estadual do PT, José Fritsch, a sigla tende a  se coligar mais com o PMDB, como em Florianópolis.

No Rio, o PSD é  comandado pelo ex-deputado federal Indio da Costa, que foi vice de José  Serra na campanha à Presidência da República, em 2010. Uma aliança  entre Kassab e Serra, no entanto, não mudaria seu posicionamento a ponto  de se juntar a siglas da oposição, como o PSDB. O PSD fluminense é  governista e está fechado com o grupo do governador Sérgio Cabral  (PMDB).

No Nordeste, argumento de pessedistas é o de que a aliança Serra-Kassab é mais pessoal do que política

O  partido apoiará a reeleição do prefeito Eduardo Paes (PMDB), que tem  acordo com o PT para indicar o vice, apesar das recentes ameaças de  rompimento. Indio da Costa afirma que a aliança com o governador e  consequentemente com o prefeito se deve ao bom governo que ambos estão  fazendo. “Eles são reconhecidos nacionalmente e internacionalmente pelos  resultados que vêm apresentando. Por isso, não há porque brigar com o  que está dando certo”, diz Indio.

A fidelidade ao governador é  grande. O dirigente afirma que nas cidades onde o PSD não lançar  candidato próprio – as maiores apostas estão em 15 dos 92 municípios – a  sigla não fará coligações com os adversários de Cabral, como PSDB, DEM  ou PR.

Em Minas Gerais, o PSD faz parte da base do governador  Antonio Anastasia (PSDB) e uma decisão de Kassab em apoiar Serra à  Prefeitura de São Paulo colocará a legenda numa posição mais confortável  na costura das alianças no Estado. É o que afirma o presidente estadual  da sigla, Paulo Simão, embora parte do partido veja com muito desagrado  uma coligação em São Paulo com os tucanos.

“Mesmo se o Kassab  acabar decidindo pelo PT em São Paulo, nossas conversas com o PSDB não  serão comprometidas aqui. Mas é claro que uma decisão do partido em São  Paulo pelo PT, levará a pressões aqui nessa direção”, afirma Simão, que  conta que Kassab se comprometeu a decidir a situação em São Paulo até 15  de março.

Em Belo Horizonte, PT e PSDB fazem parte do governo do  prefeito Márcio Lacerda (PSB), que tentará a reeleição. O PT, porém,  ameaça romper o pacto e lançar o nome do vice-prefeito Roberto Carvalho.

Simão  diz que qualquer que seja a decisão de Kassab ela trará efeitos sobre o  PSD em todo o Brasil. “Em especial em Minas, porque temos aqui talvez o  provável candidato da oposição à Dilma [o senador Aécio Neves].”

Parte dos integrantes do PSD em Minas, no entanto, consideram um equívoco o apoio aos tucanos em São Paulo.

“As  pessoas com as quais conversei estão reagindo a essa possibilidade de o  PSD apoiar o Serra com muito desgosto”, diz o segundo vice-presidente  do partido, o mineiro Roberto Brant.

“As principais lideranças do  PSDB fizeram o possível e o impossível para impedir a fundação do PSD.  Parlamentares e prefeitos que estavam com a gente tiveram de voltar para  o PSDB por pressão dos governadores. Então o partido viu com  naturalidade a aproximação com o PT”, avalia ele. A crítica de Brant –  que foi ministro no governo Fernando Henrique Cardoso – não é a Serra,  de quem é amigo e admirador. Mas ao PSDB.

O temor de Brant e seus  interlocutores no PSD é que, ao fechar uma aliança com o PSDB em São  Paulo, seu partido venha a se desidratar politicamente, como ocorreu com  o DEM. “O DEM sofreu muito com a submissão ao PSDB, e o PSD não veio  para ser o DEM repaginado. Vai nos transformar numa sucursal do PSDB”,  critica.

No Paraná, o PSD também dá sustentação a um governador  tucano, Beto Richa, porém há menos divergência interna. Em Curitiba, a  sigla deve permanecer em seu apoio à reeleição de Luciano Ducci (PSB),  aliado de Richa, contra a coligação em formação em torno do ex-deputado  federal e ex-tucano Gustavo Fruet (PDT), que contaria com o PT. “Cada  Estado é um caso”, afirma o deputado federal Eduardo Sciarra, presidente  do diretório paranaense do PSD.

Em capitais do Nordeste, o apoio  de Gilberto Kassab a José Serra também não terá influência relevante  sobre a estratégia do PSD. Aliado de primeira hora do PSB, que governa  quatro Estados na região, o partido de Kassab deve seguir à risca as  recomendações do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB),  principal liderança política nordestina e que estará ao lado do PT na  grande maioria dos palanques, apesar das ótimas relações que mantém com o  tucanato.

O argumento predominante entre os representantes locais  do PSD é de que a aliança Serra-Kassab é mais pessoal do que política.  “Trata-se de uma afinidade entre duas pessoas e não entre dois  partidos”, afirmou o ex-deputado federal pelo DEM André de Paula, atual  presidente do PSD em Pernambuco.

O partido no Estado estará  alinhado com a Frente Popular, grupo de 16 legendas comandado por Campos  e que inclui o PT. “Temos uma sintonia muito grande com Eduardo  (Campos) e esse será nosso caminho”, afirmou o dirigente.

O  cenário é bem parecido no Ceará, onde a criação do PSD ajudou o  governador Cid Gomes (PSB) a fazer o que foi chamado localmente de  “lipoaspiração” no tucanato. De acordo com o presidente estadual do PSD,  Almircy Pinto, a maior parte dos 40 prefeitos conquistados pela nova  legenda veio do PSDB.

Funcionário do gabinete de Cid, Almircy  afirmou que as alianças municipais serão fechadas em comum acordo com o  governador na maioria dos casos. É pequena a possibilidade, portanto, de  qualquer coligação com os tucanos cearenses. “Essa candidatura do Serra  não muda nada. O Kassab sempre disse que era leal a ele. É um problema  da política paulista, que é uma ilha nessa imensidão que é o Brasil”,  disse o presidente estadual do PSD.

Na Bahia, fora da zona de  influência direta de Eduardo Campos, o PSD também não indica qualquer  mudança de direção. O vice-presidente nacional do partido, Otto Alencar,  é também vice-governador da Bahia, Estado governado pelo PT e onde o  PSDB respira por aparelhos. Em Sergipe, o PSD está alinhado com o  governador petista Marcelo Déda.

No único Estado do Nordeste  governado pelos tucanos, Alagoas, o PSD é presidido pelo deputado  federal João Lyra, adversário ferrenho do governador Teotônio Vilela  Filho (PSDB). Sob o comando do parlamentar, a tendência é que o PSD  marche ao lado do senador Renan Calheiros (PMDB), outro inimigo do  governador. O PT, pouco representativo no Estado, deve seguir com este  grupo.

Na Paraíba, o ex-tucano Rômulo Gouveia, governador em  exercício e presidente regional do PSD, minimiza o efeito de uma decisão  em São Paulo sobre as alianças estaduais. “As realidades são diferentes  já no plano estadual e ainda mais no municipal”, diz. Ele lembra que PT  e PSDB fazem parte tanto da administração do governador Ricardo  Coutinho quanto do prefeito de João Pessoa, Luciano Agra, ambos do PSB.

Nas  demais capitais, o impacto da decisão de Kassab em São Paulo também  deve esbarrar na conjuntura local. Até o presidente nacional do PSDB,  deputado federal Sérgio Guerra (PE), tem poucas esperanças de que uma  candidatura Serra reforce a posição dos tucanos nas disputas país a  fora. “Não tem muito rebatimento. A candidatura ajuda a imagem do  partido no sentido geral, mas não especificamente”.

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