Alagoas: Piso salarial do psicólogo e a disputa por quem fez história

Por Silvio Rodrigo

A tímida movimentação política no cenário da Psicologia em Alagoas escancara algo que, até pouco tempo, parecia improvável para uma categoria “em conserva”: psicólogo faz política, e suas instituições estão, sim, em disputa.

O que emerge não é apenas um debate salarial, mas a revelação de tensões acumuladas em um campo profissional que historicamente preferiu a estabilidade silenciosa à arena pública.

O óbvio, mais uma vez, precisa ser dito. Desta vez, porém, com contornos que extrapolam as margens institucionais e tensionam o marasmo histórico da Psicologia alagoana: a sociedade começa a integrar a equação, e as forças políticas abandonam a confortável clausura institucional para ocupar o debate público. Não se trata apenas de um projeto de lei, mas de um sintoma, e sintomas, como bem sabem os psicólogos, revelam estruturas mais profundas.

Para quem não acompanhou: o deputado estadual Ronaldo Medeiros, presidente do Partido dos Trabalhadores em Alagoas, protocolou na Assembleia Legislativa (ALE), no dia 23 de fevereiro, um Projeto de Lei que estabelece jornada semanal máxima de 30 horas e piso salarial de R$ 4.750,00 para psicólogos vinculados à Administração Pública Estadual.

A iniciativa, fruto da mobilização de trabalhadores da Psicologia no estado, introduz uma pauta concreta onde antes predominavam formalismos protocolares.

O fato, contudo, não é consensual. Ele está em disputa entre polos distintos: o Conselho Regional de Psicologia de Alagoas (CRP15) e um movimento orgânico de psicólogos “desinstitucionalizados”, mas organizados, o Coletivo Psi na Luta.

O Conselho reivindicou para si o “passo histórico” em publicação nas redes sociais. Na contramão, o coletivo também reclama a autoria do feito e inscreve a conquista como resultado de sua articulação política.

Não cabe aqui arbitrar a verdade factual do protagonismo. Cabe, sim, analisar o significado da disputa.

O que está em jogo não é apenas um piso salarial, mas a posse simbólica da memória: quem poderá dizer, no futuro, “fomos nós que fizemos”?

A disputa pela história torna-se, assim, o centro do debate, e a capacidade de mobilizar a categoria passa a depender menos do anúncio formal e mais da narrativa construída.

Mas há algo mais profundo em curso:

  • Abre-se a possibilidade de uma discussão real sobre o trabalho, categoria frequentemente esquecida no universo da Psicologia alagoana, onde o discurso técnico muitas vezes eclipsa as condições materiais de exercício profissional.

  • Impõe-se a necessidade de organização institucional mais robusta e de estratégias de comunicação social à altura de um cenário politizado.

  • Convida-se a sociedade a refletir sobre o papel do psicólogo e sobre a Psicologia como ciência e profissão, deslocando-a do consultório privado para o espaço público.

Em minha análise, a riqueza real dessa movimentação não está na disputa pela legitimidade histórica, componente simplório diante da complexidade do momento, mas na emergência coletiva em torno do trabalho do psicólogo.

Em um estado onde a memória tradicional costuma sustentar a estabilidade de grupos minoritários no poder, a apropriação da história é ferramenta recorrente de legitimação política. Aqui, ela reaparece como sintoma de um campo em transformação.

O fato de a proposta ter surgido a partir de articulação com o Partido dos Trabalhadores, alvo de descontentamento de parcela da categoria, adiciona um entrelace ideológico incontornável.

A neutralidade, tão invocada em ambientes profissionais, revela-se ficção. Toda política pública carrega projeto de sociedade, e toda recusa também o carrega. O que se inaugura, portanto, é o convite ao debate explícito.

A ênfase no novo, entretanto, não autoriza o esquecimento do passado.

Este retorna como sombra no debate político da Psicologia alagoana, lembrando que a história local é marcada por precarização, instabilidade empregatícia e forte influência das dinâmicas oligárquicas, onde indicações, vínculos familiares e dependências institucionais moldam trajetórias profissionais.

O uso da História continuará sob observação crítica. Porque, se o presente inaugura uma ruptura, o futuro da categoria dependerá menos de quem reivindica o feito e mais de como se consolidará um campo profissional capaz de enfrentar a precarização e a violência política que, há décadas, atravessam o tecido institucional do estado.

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