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A voz da mãe ao filho morto

Há 14 anos atrás eu completava 30 dias de choro. Estava aprendendo que o luto acontece no cotidiano, quando o sol não permite retardar o seu avanço sobre a Terra e a lua não congela no céu, para que o tempo não passe, nos afastando do amor que está fisicamente ausente.

Em 22 de novembro de 2010 retiraram do seu corpo jovem o sopro da vida com brutal violência, mas ainda mais brutais seriam as justificativas que lograram criar para naturalizar o assassinato.

Você tinha apenas 16 anos e uma possibilidade de vida que se ligava às nossas, mas havia algo em você que incomodava o sistema feito de gente perversa.

Naquele terrível dia eu falei diante do teu corpo que durante essa encarnação jamais deixaria de ser tua mãe. E faço a luta infinda pelo zelo da tua memória, protegendo tua passagem pelo mundo injusto com o manto lúcido do amor que pensa, registra e resgata a beleza do teu olhar, separando o que é eterno e tem valor.

Nestes 14 anos minha alma conheceu todos os recantos de punições criados pela perversão da verdade humana. Fui alimentada pela beneficência da razão que me levou além do fenomênico e enxerguei a mão doente da ignorância conduzindo o tempo, orientando uma sociedade tresloucada a desencadear processos de autofagia e decidi sobreviver ao sofrimento que por três meses me prostou em madrugadas insones.

Recompus teu rosto em poemas. Segui o rumo das nascentes e acreditei nas fontes de vida mais simples e essenciais, sempre recusando pertencer ás águas caudalosas que afogam ilusões, porque por ti, eu precisava da verdade. Mesmo quando o chão estava em brasa e as perseguições viravam rotina, eu precisa queimar meus pés para continuar e continuava.

Disse o que pude, denunciei o mal como se não houvesse amanhã. Mas o amanhã ninguém controla, e sempre haverá quem escolha o bem.

Me tiraram muito. Mas nunca poderão levar tudo.

Aprendi a ser eco, falei por muitas outras, mas não poderia ficar muito tempo longe de mim. Meu compromisso é sobreviver.

Naquele 22 de dezembro de 2010, completos 30 dias do teu martírio, eu vi as personalidades que se aproximaram de nós na celebração religiosa, e o desejo que esse mundo tinha de enterrar teus direitos negados, tua pureza existencial, tua energia espiritual. Eu disse não.

Precisei do não como meus pulmões pediam ar. Era preciso confrontar o estabelecido, e descobri o quanto social pode ser o homem morto.

Minha luta não poderia mais ser pelo corpo perto do meu, mas pelo teu nome eu lutei, pelo teu rosto simbólico que a sociedade desfigurava, eu me tornei guardiã da memória amada, e mantive contigo outros vínculos.

A sociedade vil não desistia de te violentar, maculando tua juventude roubada,  e eu não cansava de redarguir e causar mal estar no comodismo moralista dos julgadores, todos covardes.

O tempo foi levando a cinza e trazendo a brisa, mas a luta infinita tomou outras proporções. Cada pedaço de mim, virou mosaico de nós.

E todos eles sabem do que falo, quando em silêncio ou em escrita reafirmo meu não.

Há 14 anos eu renasço todos os dias para dizer que continuo viva e sendo tua mãe.

 

SOBRE O AUTOR

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