A teocracia retrofuturista de ‘‘A Bússola de Ouro’’

Vanderlei Tenório

O enredo de ‘‘A Bússola de Ouro’’ (2007), de Chris Weitz (‘‘Lua Nova’’ – Saga Crepúsculo) decorre num mundo paralelo, em uma teocracia retrofuturista onde a energia vem do ambar, as viagens são feitas de balão e zeppelin (um tipo de aeróstato), há ursos polares inteligentes que governam Svalbard (um arquipélago norueguês do ártico), e a alma de cada humano tem um equivalente animal chamado de ‘daemon’.

Na época do lançamento, um fato levou ao desespero certos católicos do planeta não foi a (falta de) qualidade do filme, e sim uma instituição que aparece na obra escrita e no longa, o ‘‘Magisterium’’. Na obra de Philip Pullman, ele é descrito explicitamente como uma igreja poderosa que atua na intenção de controlar e cercear o livre pensamento dos habitantes de um mundo paralelo ao nosso.

Sobre o Magisterium:

O Magisterium é uma união de vários órgãos de influência religiosa, que juntos representam a Igreja Católica no mundo de Lyra (a protagonista do longa-metragem). O Magisterium, entretanto, é muito poderoso e influente. Antes de morrer, o Papa João Calvino moveu a sede do Papado para Gênova, e criou o Tribunal Consistorial de Disciplina, fazendo a Igreja possuir um poder político ainda maior. Após a morte do Papa João Calvino, mais precisamente em 1564, o Tribunal Consistorial de Disciplina aboliu o Papado, de onde cresceram vários órgãos, que posteriormente iriam ser chamados de Magisterium.

A sede do Magisterium ainda permanece em Gênova, e a maioria de seus órgãos são rivais entre si. O Magisterium é dividido em vários órgãos, os quatro mencionados na trilogia de livros foram: Conselho Geral de Oblação, Tribunal Consistorial de Disciplina, Sociedade da Obra do Espírito Santo e Colegiado dos Bispos (o mais influente órgão do Magisterium).

A Teocracia:

Como pontua o jornalista Elias Lascoski, do Politize, em um Estado teocrático pleno, o governo opera sob o argumento de que são ordens divinas. A vontade do povo, em geral, fica em segundo plano se não coincidir com os interesses do sistema vigente. Nisso, em tese, nos países teocráticos a divindade é reconhecida como o verdadeiro chefe de Estado. Na prática, quem ocupa este cargo é um governante de carne e osso que se diz seu representante, descendente ou sua própria encarnação. É o caso do Magisterium, em ‘‘A Bússola de Ouro’’ (2007).

Trazendo para nossa realidade, Lascoski frisa que os Estados teocráticos do mundo contemporâneo cultivam princípios muito diferentes dos valores que norteiam a política dos Estados laicos. A fronteira mais visível que separa estas formas de pensamento é geográfica. Palpavelmente, todos os Estados islâmicos, que é como se autodeclaram os países muçulmanos, monárquicos ou não, têm a teocracia como sistema de governo, como exemplo, podemos citar: Afeganistão, Arábia Saudita, Mauritânia, Paquistão e Irã. A cidade do Vaticano é uma teocracia católica com o Papa Francisco como chefe do governo.

Voltando ao filme, o Magisterium é, por sua vez, um Estado teocrático radical nas correlações entre religião, sociedade, lei e política. Governa com mão de ferro, preza pela lei acima de tudo e todos, extinguiu a democracia, controla e censura a imprensa (não há imprensa livre), está em todas as instituições e entidades (públicas e privadas), cerceia a liberdade de expressão e livre-arbítrio da população, persegue, tortura e assassina opositores do sistema de governo. O Magisterium atua como legislativo, executivo e judiciário. Nesta perspectiva, o Magisterium é uma alegoria política e crítica direta ao poder da igreja apostólica romana.

Posicionamento do Vaticano e de entidades católicas:

Vale lembrar que na época o Vaticano condenou o filme, tachando a obra de anticristã. Segundo o Vaticano, o longa-metragem promovia a ideia de um mundo frio, sem Deus e caracterizado pela desesperança. Num editorial longo, o jornal do Vaticano l´Osservatore Romano também fez duras críticas a Philip Pullman (que é ateu), autor do best-seller homônimo que deu origem ao longa de fantasia voltado ao público ‘familiar’. Na época, de acordo com a Agência Reuters, foi a crítica mais dura feita pelo Vaticano a um autor e um filme desde a condenação que fez de ‘‘O Código da Vinci’’, de Dan Brown, em 2005 e 2006. O editorial ‘papal’ terminava com a seguintes palavras: ‘‘No mundo de Pullman a esperança simplesmente não existe, porque não existe salvação senão na capacidade pessoal e individualista de controlar a situação e dominar os acontecimentos”. A Liga Católica dos Estados Unidos, por sua vez, exortou os cristãos a não assistirem ao filme, dizendo que o filme tinha por objetivo prejudicar o cristianismo e promover o ateísmo entre as crianças, para barrar o lançamento organizaram um protesto que focava em boicotar a estreia nos cinemas.

Lançamento:

O longa recebeu críticas mistas (mais para negativas) por parte da crítica especializada, apesar de ter ganhado um Oscar de melhores efeitos visuais e uma indicação a melhor direção de arte, o filme não foi bem em bilheteria, com orçamento de US$ 180 milhões, a fantasia “A bússola de ouro”, estrelada por Nicole Kidman e Daniel Craig, decepcionou na estreia nos cinemas americanos. O filme ficou em primeiro lugar no ranking dos mais vistos, mas teve bilheteria abaixo do esperado, com faturamento de apenas US$ 26,1 milhões. Segundo a New Line, a distribuidora trabalhava com a expectativa de que a produção arrecadasse algo entre US$ 30 milhões e US$ 40 milhões em seu primeiro fim de semana em cartaz. ‘‘Foi um pouco decepcionante’’, disse Rolf Mittweg, diretor de distribuição e marketing da New Line, em declaração feita em 2007.

Todavia, vale a pena assistir ao filme, fica a indicação.

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