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A rotina brasileira de arrancar cabeças para reconhecer negro criminoso

O ritual para identificar negros escravizados considerados criminosos no Brasil era tão cruel que o capitão do mato chegava a arrancar a cabeça do suspeito, levar ao juiz e, com a presença de uma testemunha, dizia-se se o negro era ou não era o autor do ilícito.

Em 30 de outubro de 1821, o juiz pernambucano Caetano Xavier Pereira de Brito morava na antiga rua da Ponte, no centro de Porto Alegre.

Naquele dia, recebeu em sua casa o capitão do mato Francisco Gonçalves Pedro. Ele trazia nas mãos a cabeça de Antônio Banguela, negro escravizado que pertencia ao comerciante Manoel Alves dos Reis Louzada, rico, famoso, poderoso, comerciante, dono de embarcações, escravos e fazendas.

O juiz, representante da justiça cega e isenta, faria, ali mesmo, um
“Auto de reconhecimento da cabeça de um preto
apresentada pelo Capitão de Mato”. A missão tinha, além do juiz Brito, o escrivão Barreto, o caixeiro Jardim, o capitão do mato e Antônio da Silva Bueno, que substituiu Louzada naquele momento.

Antônio e o caixeiro Jardim, testemunhas, examinaram a cabeça e reconheceram o preto Antônio Banguela. Francisco Gonçalves disse que ele havia sido capturado “no ato de ser apreendido em um quilombo”.

Caso encerrado.

Dois meses antes, o capataz da fazenda de Lozada e seu compadre, Antonio Joaquim de Abreu, foi assassinado com a pancada do olho de um machado, na cabeça.

Antônio Joaquim havia dado ordens aos pretos para amarrar um parceiro deles e castigá-lo.

O grupo se recusou.

O capataz agarrou um pau e se preparou para bater nos pretos.

Eles imobilizaram Antônio Joaquim.

Antônio Banguela agarrou a goela do capataz. E o matou com a pancada do machado.

Os professores Paulo Roberto Staudt Moreira (Universidade do Vale do Rio dos Sinos)
e Raul Rois Schefer Cardoso (Centro Universitário La Salle), na Revista Latino-Americana de História (
Vol. 2, nº. 7 – Setembro de 2013) reconstituíram os passos desta história.

Os depoimentos conduziam para a culpa do grupo de escravizados, do qual Antônio Banguela fazia parte.

Entre o assassinato e a sentença de morte a Antônio Banguela há uma curtíssima diferença de tempo: 2 meses.

Dois dos pretos foram presos e incriminados: João Angola e Pascoal Cabinda.

João disse que Banguela matou o capataz mas não sabia o motivo do crime.

Quanto a Pascoal, a justiça não encontrou provas contra ele, que foi absolvido com João.

Antônio Banguela, degolado pelo capitão do mato, não poderia se defender.

Cabeças sem o corpo não falam.

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