Por Silvio Rodrigo, mestrando em História (UFAL)
O Dia do Psicólogo, celebrado em 27 de agosto, muitas vezes é marcado por narrativas idealizadas, repletas de grandes nomes e teorias. No entanto, é crucial questionar essa visão e confrontar a história da Psicologia no Brasil, especialmente durante a ditadura empresarial-militar. Foi um período de barbárie em que o conhecimento psicológico esteve a serviço da autocracia e da crueldade, uma parte do passado que muitos preferem não ver.
Enquanto a graduação em Psicologia no Brasil frequentemente repete os repertórios europeus de seus “pais fundadores”, uma história de compromisso com o autoritarismo permanece oculta. Como pesquisador da área, tenho me deparado com documentos que revelam o envolvimento da Psicologia com o regime militar, uma realidade que desafia nossa percepção sobre a profissão.
Além disso, há uma percepção incômoda de que a história da Psicologia em Alagoas foi parcialmente deletada dos recortes celebrativos oficiais. Essa história, no entanto, revela a força e a subversão dos estudantes do primeiro curso formal de psicologia do estado, que lutaram contra a ditadura e pela democratização do acesso à educação superior.
Alagoas: O Berço da Rebeldia
Em Alagoas, essa história ganha contornos particulares. Em 1974, a inauguração do primeiro Instituto de Psicologia em Alagoas marcou uma tendência nacional de proliferação de cursos em instituições privadas.
Esse movimento foi resultado de um conluio entre elites intelectuais, eclesiásticas, industriais e militares que, ao superarem burocracias, permitiram a chegada da “ciência moderna do comportamento”.
Mas a modernização do estado manteve suas formas de opressão, e a Psicologia, com seus testes e métricas, serviu para ajustar a sociedade aos ditames do regime.
Apesar desse cenário, Alagoas foi palco de insurgências. Arquivos do Serviço Nacional de Informações (SNI), o órgão de repressão da ditadura, registram a revolta de estudantes de Psicologia que, em 1980, lideraram uma greve contra o aumento das semestralidades. Um ofício datado de 1980, do Diretor Geral do Cesmac, Teófanes Augusto de Araújo Barros, ao Secretário de Segurança Pública de Alagoas, revela a perspectiva da direção da faculdade.
Segundo ele, o movimento era liderado por uma “minoria” ligada à UNE e ao DCE da UFAL.
O diretor descreveu como os estudantes usaram os recintos da faculdade para realizar assembleias, apesar da oposição da instituição. Ele negou a acusação de “repasse” de valores, que, segundo ele, teria sido usada para “acirrar os ânimos da estudantada desinformada”.
Teófanes mencionou que as tentativas de negociação falharam e que os alunos, no dia 11 daquele mês, decretaram greve, exigindo a revogação do aumento.
Ele fez questão de ressaltar que os diretórios acadêmicos de Psicologia e Administração não aderiram e que o movimento era capitaneado por “Comissões de Resistência”, que, na visão da direção, não representavam os estudantes.
Os “Perigosos” do Movimento
O ofício detalhou a deflagração da greve, com os líderes “desesperados” formando piquetes. Teófanes mencionou nominalmente os responsáveis: Claudionor Correia de Araújo, presidente do Diretório da FAFIMA, teria se posicionado em frente aos portões da Faculdade de Filosofia. No curso de Psicologia, o mesmo teria acontecido sob a liderança de Luciano de Albuquerque Aguiar.
O relato também descreveu a atuação de grupos nas faculdades de Administração e Direito, com o apoio de Everaldo Bezerra Patriota. O diretor finalizou o documento informando que estava “empenhado em obter orientação” dos órgãos de segurança para combater o movimento, enviando fichas cadastrais dos principais “agitadores” para que a repressão pudesse agir.
No final dos anos 70, em plena ditadura militar, os relatórios do SNI eram diretos. Uma ficha de qualificação identificava a estudante de psicologia Julieta Maria Rocha de Medeiros, nascida em Capela, como um “elemento muito perigoso”.
O documento detalhava seus dados pessoais e a considerava uma das grandes lideranças do movimento estudantil, “altamente articulada com a UNE e com o DCE da UFAL”, e “autêntica e atrevida”. A ficha concluía que o “sustentáculo da operação no Instituto” de Psicologia de Maceió dependia, em grande parte, da liderança de Julieta.
Outro documento apontava para Luciano de Albuquerque Aguiar, nascido em Maceió, como o “elemento mais perigoso depois do principal líder”, Claudionor, e o “grande causador de toda a bagunça” no Instituto de Psicologia. Luciano, que havia sido candidato à presidência do Diretório Acadêmico e derrotado, se autodenominava dirigente de uma “Comissão de Resistência”.
A vigilância sobre as lideranças estudantis também incluiu Mario Vinícius Ramires Villela, nascido em Maceió, descrito como um dos principais articuladores e “oradores consagrados” do Curso de Psicologia.
A ficha o classificava como uma figura de grande perigo, sempre “à frente de quaisquer manifestações”, com “articulações com lideranças da UNE”.
Apesar das difamações e da espionagem, as sementes da resistência já haviam sido plantadas. É nessa raiz subversiva, no chão das lutas pela democracia e pela democratização do conhecimento, que se encontra a verdadeira essência da Psicologia alagoana.
O Silêncio da Ordem
Apesar do passado de luta, a Psicologia em Alagoas e no Brasil ainda se vê refém do status de “ciência da ordem”. A hegemonia das empresas privadas de ensino superior sequestrou os espaços de decisão da profissão, e a oligarquia dessas instituições tem ditado os rumos da Psicologia, ofuscando o seu compromisso social.
A falta de estudos sobre a realidade material do estado, a carência de postos de trabalho e a escassez de referências críticas em Psicologia deixam a profissão à mercê de análises estrangeiras, inadequadas à nossa realidade.
Para mudar esse quadro, precisamos resgatar a nossa “estima subversiva” e ousar alcançar a mudança, construindo uma Psicologia comprometida com Alagoas. A luta pela memória, verdade e justiça deve ser a nossa bússola, um guia para desvendar o passado e construir um futuro mais justo para a profissão e para a sociedade.
BIBLIOGRAFIA
ALBUQUERQUE, S. R. L. O.; GUIMARÃES, G. M. Modernização Conservadora e o Primeiro Curso de Psicologia em Alagoas (1970-1980). Cap. 7, p. 174-197. In: LIMA, A. S.; MACIEL, O (orgs) Ditadura Empresarial-Militar em Alagoas: trabalhadores, poder e cultura (1964-1988). Goiânia: Phyllos Academy, 2024.
SERVIÇO NACIONAL DE INFORMAÇÕES (Brasil). Agência Recife. Informe n. 152/ARE, de 20 out. 1980. Assunto: agitações estudantis ocorridas no CESMAC. Origem: ARE/SNI. Arquivo Nacional
