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A moral da surra, no início da indústria têxtil em Alagoas

Nós nos acostumamos a saber que as primeiras indústrias na Inglaterra da Revolução Industrial tinham as piores e mais chocantes condições de trabalho e famílias inteiras, incluindo crianças, eram recrutadas para um regime de exploração que acabou incentivando as ideias socialistas.

Mas em Alagoas a situação foi quase exatamente igual. Quase porque na Inglaterra dos séculos 17 e 18 não existia escravidão. Já o Brasil foi o último país das Américas a abolir o regime de servidão.

Para a gente entender tudo isso, é importante lembrar que aqui ainda tínhamos escravos- a lei Áurea só seria assinada em 1888- e o país só teria sua primeira norma legislativa sobre o Direito do Trabalho, a CLT, aprovada em 1 de maio de 1943.

Nas primeiras indústrias têxteis de Alagoas, os operários trabalhavam das seis da manhã às oito da noite, quase sem descanso. O salário era tão pouco que a cena mais comum eram mulheres e crianças também trabalhando nos teares, ganhando menos que os homens e submetidas a uma jornada de trabalho ainda mais exaustiva.

Os acidentes de trabalho eram constantes: operários tinham pernas e braços amputados pelas máquinas. E se eles sobreviviam, corriam risco de morrer de malária e pneumonia. O ambiente de produção era o pior possível mas os lucros das famílias eram sempre maiores.

As primeiras indústrias têxteis alagoanas buscavam misturar elementos europeus e a herança do patriarcado mais a filosofia dos engenhos de açúcar: torrar a mão de obra até o bagaço.

Por isso, ao redor das primeiras fábricas foram construídas moradias ao estilo europeu, alugadas para os operários. A relação era como a do barracão, ainda comum na área canavieira: sócios das fábricas também eram donos de armazéns, bodegas e tavernas. E os trabalhadores e suas famílias tinham obrigação de consumir os produtos destes lugares. Tudo era anotado em cadernetas e, no final do mês, o pouco salário ainda pagava estas despesas, basicamente com comida e bebidas.

Mestre em História pela Universidade Federal de Alagoas, Eric Nilson da Costa Oliveira diz em sua tese “Análise Socioeconômica de Alagoas: Fontes e História Sobre Algodão e a Indústria Têxtil, 1850-1915” que as condições destas primeiras fábricas eram tão ruins que estes trabalhadores ganhavam salário mas tratados como escravos. Por isso, com o tempo, eles se organizaram e criaram grêmios, organizações, afiliações ou associações para defenderem seus interesses.

12 anos antes da abolição da escravidão no país, os tecelões na fábrica de Fernão Velho criaram a associação “Proteção e Auxílio”, para amparar os trabalhadores doentes ou ajudar suas famílias, em caso de morte. Isso em fevereiro de 1876.

Em 1883, os ferroviários da Alagoas Railway organizaram as primeiras greves: 200 trabalhadores decidiram cruzar os braços e abandonaram as estações para cobrarem salários atrasados.

Movimentos deste tipo eram impensáveis naquela Alagoas semi feudal. O setor produtivo – os donos de engenho- era acostumado a resolver reclamações dos seus escravos na base do chicote ou da espingarda. Mas a indústria de processamento de algodão foi implantada em Alagoas com tecnologia e pessoal vindos da Europa. Isso também implicou na importação de ideias socialistas que varriam o velho mundo.

Na greve dos ferroviários, por exemplo, a imprensa, para dar voz aos donos das fábricas, justificava qualquer ação mais violenta para colocar fim na desordem, neste caso a paralisação. E a polícia foi chamada várias vezes para colocar em prática a moral do cacete, da surra. Mas era tarde demais: as greves explodiam e tinham ampla adesão. Em 1896, os serventes dos armazéns da Alagoas Railway, em Jaraguá, exigiam aumento nos salários. O superintendente da companhia, então, recrutou gente pelo interior para trabalhar em Maceió, no lugar dos grevistas, que impediram a estratégia de furar o movimento.

Todo este clima, é claro, motivava os operários das fábricas. Greves pipocavam na Companhia Alagoana de Fiação e Tecido e Progresso em Cachoeira, do comendador Teixeira Basto.

Em 29 de maio 1892 os operários criaram a Liga Operária Alagoana que se fundiu ao Partido Operário Socialista do Estado de Alagoas, fundado em 20 de maio de 1893, em Maceió. Em 22 de outubro daquele ano, eles lançaram o próprio jornal: O Proletário, publicado aos domingos, e buscando conscientizar os trabalhadores em torno do ideal socialista.

Em 20 de outubro de 1913, os operários da Companhia Alagoana de Fiação e Tecido e Progresso em Cachoeira organizaram uma uma greve e cometeram a ousadia de listar uma série de exigências, como revisão na tabela dos salários, aumento geral de 5% a 10%, trabalho facultativo entre seis da tarde e oito da noite e o pagamento de uma espécie de hora extra neste horário. O movimento era organizado e até o governador Clodoaldo da Fonseca foi chamado pelos operários para intermediar o fim do conflito. Tudo isso 30 anos da aprovação da CLT, que só sairia do papel em 1 de maio de 1943, na ditadura Vargas.

Depois disso, o mundo do algodão e do trabalho seriam bem diferentes deste passado sombrio.

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