Repórter Nordeste

A mensagem de São Benedito e sua cor

Ao caminhar sob o sol escaldante, nas ruas do centro de Maceió, não pude evitar a curiosidade acerca dos fogos que explodiam, agitando os transeuntes. Certifiquei-me então, de que aqueles vinham da Igreja de São Benedito, onde as festividades religiosas em louvor desse santo amado pelos fiéis populares, aconteciam.

Foto:Ana Cláudia Laurindo

Desloquei-me até a igreja, a mesma na qual foi celebrada a missa da minha formatura no Magistério.

Mas ao apreciar as faces piedosas em sincera louvação, rememorei a Igreja de São Benedito (ou do Rosário) em Matriz de Camaragibe, no norte do estado, onde cresci e aprendi sobre as coisas sagradas.Naquela construção secular existe uma placa registrando que a mesma foi construída pelos pretos escravos, sempre mal percebida e menos ainda, compreendida.

Nas grandes procissões, a imagem humilde do Santo Negro acompanha o cortejo, em andor florido.

De protetor dos cozinheiros na Itália, onde era chamado de “mouro” pela cor, e existem discordâncias a respeito de sua origem: seria decendente de escravos etíopes ou fora capturado no norte da África, o certo mesmo é que sempre foi pobre! Caminhante de pés descalços, capaz de dormir no chão sem cobertas entre eremitas, foi designado para ser cozinheiro no Convento dos Capuchinhos, chegando a ser Superior do Mosteiro por méritos de virtude e espiritualidade, foi capaz de reassumir o posto humilde ao término do período designado. Representando no Brasil, a identificação da fé católica ou eclética pelas vias do sincretismo, do preto escravizado.

São Benedito expressa nossos pés descalços. A luta humilde dos braços pobres, nas trações cotidianas da sobrevivência. Como desprezar esse significado?

Aos que não conseguem ver pelos olhos da fé, talvez represente um embuste. Mas os significados religiosos exercem inúmeras funções em nossa sobrevivência psicológica às hecatombes existenciais (muitas delas geradas por decisões humanas!).

A identificação da plebe com as divindades mais próximas levedou a multiforme religiosidade brasileira, rica de simbolismos e cores, cantos e reverências. Todas têm encantos e verdades próprias.

Pelas estradas amistosas da percepção ecumênica que me guia, faço também o sinal da cruz, baixo a fronte, com amém ou assim seja, no conforto de acreditar que existe mais que maldade na subjetividade humana: existe esperança, desejo de cura e votos de paz.

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