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A guerra do Irã: uma retórica muito além do programa nuclear

Hussein Ali Kalout -Cientista político, professor de relações internacionais e especialista em Oriente Médio pela Universidade Árabe de Beirute-Correio Braziliense

O  confronto entre o Ocidente e a República Islâmica do Irã entra em sua  etapa mais complexa. O recrudescimento das tensões caminha rumo a um  ponto sem retorno. Daqui por diante, o estado persa será o principal  tema da agenda de segurança internacional. Por trás da retórica contra o  programa nuclear iraniano encontra-se um plano estratégico dos EUA, com  o providencial apoio de Israel, cuja finalidade é a reconfiguração  política do Oriente Médio e o domínio sobre o continente asiático – para  onde se desloca o eixo decisório das relações internacionais no século  21.

Nesse sentido, são vários os objetivos: dominar o petróleo  iraniano; condicionar o desenvolvimento da economia chinesa — cada vez  dependente do petróleo persa; limitar a influência político-militar  russa; impedir a consolidação do Irã como potência regional; liquidar o  corredor político xiita que se estende do território iraniano, passando  pelo Iraque e Síria, e chega ao Líbano. Estudos da Opep apontam que 60%  das reservas mundiais de petróleo estão no Oriente Médio. O Irã detém a  segunda maior reserva da região, sendo o quarto maior exportador do  planeta e o terceiro em reservas globais. O possível domínio  norte-americano sobre o petróleo persa faria com que os EUA controlassem  as três maiores reservas petrolíferas do Oriente Médio: Arábia Saudita,  Irã e Iraque. Isso sem contar os demais países satélites do Golfo  Arábico, há tempos cooptados pelo establishment petroleiro  euro-americano.

Consolidando um poderio energético inconteste no  contexto global, os EUA causariam graves danos aos interesses  estratégicos chineses, já que o controle das jazidas iranianas iria  determinar o crescimento econômico do gigante asiático. Afinal, a China  importa cerca de 30% da produção de petróleo iraniano, o que representa  aproximadamente 20% das necessidades de consumo energético de sua  economia de base industrial. O papel da Rússia na região também entra  nessa equação geopolítica. Em que pese serem dos principais importadores  de petróleo iraniano, os russos não dependem energeticamente dos persas  como a China e a Índia. Para Moscou, a principal ameaça consiste na  interrupção do comércio de armamentos e de tecnologia militar de alto  nível ao governo de Teerã, o que culminaria no isolamento da Rússia em  assuntos estratégicos relevantes no Oriente Médio.

No bojo desta  concertação, se insere ainda a retórica israelense por pressões e  retaliações, num esquema de revezamento com os americanos para manter  elevada a tensão na área. A confrontação com Teerã é vital para o  governo Netanyahu desviar o foco de temas mais espinhosos, como a  questão palestina e a insatisfação interna encarnada nos indignados da  boulevard Rotschild. A segurança do Estado judeu não se correlaciona  diretamente com o progresso do programa nuclear iraniano. O risco maior  está na consolidação do “corredor” político xiita que ora se constitui  no Oriente Médio. Liquidar com o eixo Irã-Iraque-Síria-Líbano é elemento  crucial para salvaguardar os interesses israelenses. Daí a aceleração  da marcha de guerra para a destruição da conjunção “mater” deste  arcabouço: o Irã. A Arábia Saudita também trabalha para brecar o  renascimento do Irã enquanto potência regional. Há o temor de que a  crescente influência xiita no mundo árabe leve os persas a rivalizar com  os interesses econômico-político-militares sauditas no Oriente Médio.

O  plano de ataque ao Irã está traçado e sua execução é uma questão de  tempo e oportunidade – recursos econômicos, alianças diplomáticas e  treinamento militar. A dúvida não é mais “se” e sim “quando” vai  acontecer. Sem hesitação, o Congresso americano, com o apoio da Aipac  (lobby pró-Israel nos EUA) e do complexo industrial bélico, caminha na  linha de que uma intervenção deve ser imposta. Restará aos iranianos  render-se ou lutar. O processo diplomático no contexto multilateral será  um sério obstáculo à guerra. Além da acomodação dos interesses  estratégicos de russos e chineses, há o temor generalizado de que o  conflito agrave a crise econômica mundial e afete o comércio global com  um novo choque do petróleo. A cautela temporal dos EUA está  consubstanciada na contra-reação iraniana, que arrastará para o conflito  os demais países da região. As bases americanas na Arábia Saudita,  Bahrein, Catar, Kuwait, Iraque, Omã e Afeganistão serão alvos fáceis  para os persas. Frentes de batalha seriam abertas pelo Hezbollah e pelo  Hamas contra Israel, e a proliferação de atentados terroristas movidos  pelo antiocidentalismo, cedo ou tarde, atingiriam a Europa e a América  do Norte.

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